Março de 1970, menos de três meses para a Copa do México. O Brasil vivia uma situação política bem conturbada, auge da ditadura militar, período de intensa repressão aos opositores do regime político que havia se instalado no país seis anos antes. Para tentar esconder esse período de perseguição e mortes, o governo brasileiro usava o futebol para o povo não perceber o que realmente acontecia no país. A Copa de 1970 se tornava uma ampla propaganda de marketing que a ditadura usava ao seu favor, e que realmente dava certo, pois o governo apostava que se o país tivesse sucesso no futebol, também teria na política. Nessa época era comum as constantes manifestações contrárias ao regime que se instalava no país. O governo respondia com prisões, torturas e mortes os participantes desses movimentos considerados subversivos.
Enquanto a maioria da população era cativada pelo futebol, existiam pessoas que lutavam contra a ditadura. Dentre elas, estava Jorge Sampaio, um estudante de medicina, líder do Diretório Acadêmico de sua universidade, jovem, alto e esbelto, no auge de seus 23 anos, fanático simpatizante dos ideais socialistas. Havia organizado várias manifestações contra a ditadura na capital, por isso estava sendo perseguido pelo Exército e pela Polícia. Deveria ser preso e interrogado, mas sabendo do que realmente iria lhe acontecer, fugiu para o interior do Estado, com a intenção de preservar sua vida. Abandonou a família, a faculdade, a noiva, sem deixar rastros.
Logo que chegou à nova cidade, Jorge conheceu outros jovens, que assim como ele, queriam lutar contra o que estava acontecendo no país. Fez várias amizades novas. Todas as noites eles saiam para beber, se distrair e discutir os problemas do país.
Em uma dessas noitadas, foram a uma festa em uma badalada discoteca da cidade. Era final de maio de 1970, o vento frio já anunciava que o inverno estava chegando, fazia 12º C pouco antes da meia noite. Todos os jovens da cidade se faziam presente e das cidades vizinhas também, pois era a tradicional festa de início de inverno, que se realizava anualmente. Aquela noite prometia ser uma das melhores dos últimos tempos, pois havia vários meses Jorge não saia para se divertir, pois na capital corria o risco de ser preso.
A festa estava agitada, Jorge dançava e se divertia com os novos amigos como havia muito tempo não fazia. Mas a noite iria lhe proporcionar mais surpresas agradáveis. Já se passavam das três horas da manhã quando Alice, uma amiga de Jorge, lhe apresentou sua colega de magistério, chamada Maria Beatriz. Ele ficou encantado com a charmosa moça de 17 anos de idade, 1, 70m de altura, loira, cabelos lisos e compridos, olhos azuis. Ela, por sua vez, achou aquele rapaz muito gentil, atencioso e educado, tão diferente dos outros que já conhecera antes.
Durante o resto da noite, ambos se dedicaram a uma conversa que se estendeu até o final da festa. Marcaram de se encontrar no dia seguinte para se conhecerem melhor, às cinco horas da tarde, no parque da cidade.
No dia seguinte, como combinado, lá estava Jorge esperando aquela bela moça chegar. Já se passava das cinco horas da tarde e Maria Beatriz não aparecia, ele já estava nervoso e preocupado. Será que ela não tinha gostado dele, pensava. Passados dez minutos, chega Maria Beatriz. Os dois conversam por duas longas horas e finalmente o primeiro beijo acontece. Naquele instante o mundo pára para os dois, nada mais importa, nem as idéias socialistas de Jorge, nem o bravo pai de Maria Beatriz que a mandou voltar para casa até às seis horas da tarde e já era mais de sete horas da noite. Os dois queriam aproveitar ao máximo aquele momento.
E assim foi durante vários dias, os dois se encontrado nos finais de tarde para estarem juntos. Mas na tarde do dia 3 de junho Maria Beatriz não viria. Era a estréia do Brasil na Copa contra a Tchecoslováquia e seu pai queria a família inteira reunida para assistir o jogo em frente ao televisor, pois ele considerava isso um sinal de patriotismo. Maria Beatriz era de uma família de classe alta, e ao contrário da imensa maioria da população brasileira, já possuía televisor em casa. O país inteiro parava para acompanhar aquele incrível time com Pelé, Rivelino, Jairzinho, Gerson, Tostão, entre outros craques. Jorge não estava nem um pouco interessado na seleção brasileira, sabia que isso não iria resolver os problemas do país. Ele queria mesmo era aproveitar seu namoro com Maria Beatriz, mas não entendia o motivo pelo qual o pai da moça obrigava toda a família a se reunir para assistir ao jogo do Brasil.
Depois de mais alguns dias de encontros e desencontros, Maria Beatriz convidou Jorge para ir a sua casa, queria lhe apresentar aos seus pais. Jorge ficou entusiasmado com a idéia, Maria Beatriz conversou com seus pais, que concordaram com a proposta de conhecer o futuro genro. No dia combinado Jorge colocou sua melhor roupa e comprou um buquê de flores para amada, pois queria causar a melhor impressão possível.
Às 20 horas Jorge deveria ir à casa de seus futuros sogros, e pontualmente chegou. Foi recebido por Maria Beatriz, que lhe apresentou para seus pais, Antônio e Teresa, que o trataram muito bem. Mas apesar da boa recepção e da simpatia de seu Antônio, Jorge sentiu que era muito perigoso estar ali. Antônio Costa, pai de Maria Beatriz, era general do Exército, braço direito do governo no interior. Por trás do rosto simpático daquele senhor alto, de aparência jovial e de longos bigodes, estava escondido um dos mais impiedosos perseguidores da ditadura militar. Jorge sentiu as pernas tremerem, do mesmo modo quando conheceu Maria Beatriz, mas soube disfarçar bem e aproveitar o jantar na casa dos pais de sua namorada. Seu Antônio simpatizou com Jorge e permitiu que ele namorasse sua única filha. Na mesma noite Jorge recebeu o convite para no dia seguinte voltar novamente para assistir o último jogo do Brasil na primeira fase da Copa contra a Romênia. Jorge justificou que teria que ir a capital resolver alguns problemas, o que foi aceito por seu Antônio.
Jorge sabia que estava correndo perigo. Mas o amor que sentia por Maria Beatriz era maior que tudo, e por isso estava disposto a enfrentar o pai dela, mesmo que isso colocasse em risco sua vida. Uma semana depois, o General Costa recebeu um telefonema, informando sobre supostos comunistas subversivos que estavam se escondendo na região. No meio da infinita lista, encontrava-se o nome de Jorge Sampaio, seu futuro genro. Ao chegar em casa, proibiu definitivamente sua filha de namorar Jorge, pois não aceitaria de maneira nenhuma um comunista na família. Maria Beatriz resistiu às ordens do pai, dizendo que amava Jorge e que queria ficar com ele para o resto da vida. Devido à resistência da filha em aceitar suas ordens, Antônio a trancou no quarto, só saindo com sua permissão.
O General Costa só iria ter sossego quando exterminasse Jorge, pois pelo bem e segurança do país, teria que eliminá-lo. Ao perceber que Maria Beatriz não vinha mais encontrá-lo, Jorge notou que alguma coisa estava errada e em um ato de coragem, decidiu ir até a casa de sua amada. Ao chegar lá dona Teresa avisou o que tinha acontecido e disse para ele fugir, pois seu marido queria vê-lo morto, e trancou Maria Beatriz no quarto, para que não voltasse a encontrá-lo. Jorge, sabendo que sua vida estava em risco, passou a ficar escondido em seu quarto na pensão onde morava desde que veio para o interior.
Com o único desejo de destruir com Jorge, General Costa pediu para que o sargento Silva o encontrasse e o matasse. Descobriu onde era a pensão que ele morava e mandou o sargento ir até lá. Após encontrar o quarto em que Jorge estava morando, Silva entrou e desferiu vários tiros contra o rapaz, atingindo também uma mulher que estava junto. Ambos ficaram caídos no chão, encobertos pelo sangue, agonizando antes de falecerem, enquanto General Costa chegava para ver se o sargento Silva tinha feito o serviço como combinado.
A mulher que estava com Jorge era Maria Beatriz, que havia fugido de sua casa pulando a janela, para se encontrar com ele e ambos fugirem da cidade. Estava disposta a largar tudo para viver com seu grande amor, mesmo que isso fosse contra os princípios de seu pai. Era a noite do dia 21 de junho de 1970, pouco antes, durante a tarde o Brasil havia vencido a Itália e conquistado o tricampeonato mundial, para alegria da população e satisfação geral dos militares que viam no futebol uma solução para esconder as mortes e torturas do regime.
Por Ricardo F. Bernardo
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