A NECESSIDADE HUMANA DE EXPRESSÃO ARTÍSTICA

A NECESSIDADE HUMANA DE EXPRESSÃO ARTÍSTICA

Obra, “Jogo da vida”, pintada em 1988 por Arno Schleder.

Obra, “Jogo da vida”, pintada em 1988 por Arno Schleder.

 

A arte corresponde a uma necessidade fundamental do homem. Seu primeiro objetivo é a interpretação mais completa da vida em toda plenitude. Acontece-lhe servir também a outros fins: religiosos, políticos, sociais, simbólicos, mas estes, louváveis ou não, são alheios à função primeira da arte e podem até contribuir como um obstáculo à sua realização.

A arte não contribui para a satisfação das necessidades primordiais da vida. A humanidade não pode viver sem comida, abrigo ou roupa, mas pode subsistir sem arte. Quando a própria existência do homem corre perigo, a arte, que não tem qualquer valor imediato ou prático, pode estar subordinada a valores mais urgentes.

Apesar disso, o desejo de expressão pela arte é tão profundamente humano que desde a pré-história tem se manifestado sem interrupções em toda a terra. Tudo o que sabemos acerca do homem das primeiras épocas excetuando o que suas ossadas nos contaram – deve-se ao artesanato. Este evidencia o desejo de conferir aos objetos algo mais do que um simples caráter utilitário. A sua decoração exigiu tempo e trabalho. Contudo só o aguilhão da necessidade levaria a renunciar seu prazer de ver e de manejar objetos feitos com cuidado e destinados, não apenas a corresponder a uma necessidade utilitária, mas a satisfazer o tato, a vista, o espírito e o coração.

A arte é mutável como a própria vida e como a época em que se viva. Está ligada à completa teia do momento histórico social em que se gerou. Expressa a religião, os costumes, crenças, raça, meio, cultura e moral de um povo. Porém, como já foi frisado, a arte em si não decorre desses aspectos. Ela coloca na existência algo que não existe e fala aos homens de sua época. Acompanha o homem na sua evolução e muda o próprio homem. Diz Hegel: “O homem inscreve-se em relações práticas com o meio, com o mundo externo e destas relações nasce tanto a necessidade de transformar este mundo como a necessidade de transformar-se a si próprio”.

Poucas são as atividades humanas que estão sujeitas a tantas interpretações diferentes como a arte, cuja significação varia de acordo com cada qual. Aristóteles encontra nela os elementos de uma teoria estética; Spengler, vê nela os reflexos de uma civilização. Um sábio ou um engenheiro só se interessará talvez por seu aspecto técnico, ao passo que os outros são mais sensíveis à expressão pessoal.

A variedade e a complexidade das vias de acesso à arte devem iniciar-nos à tolerância. As teorias estéticas mudam. Assemelha-se aos costumes se cada uma delas é válida numa época e lugar.

Enquanto a humanidade for composta de indivíduos, cada qual escolherá a via de acesso que lhe convém. Algumas estão abertas a todos, seja qual for a formação adquirida; outras exigem experiência ou conhecimento, ou ambas as coisas. Forçosamente, quem dispuser de um maior número de meios de aproximação, terá mais possibilidades de usufruir o prazer total da arte. E é esse prazer que diferencia o ser humano de todos os outros.

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