Por Ricardo Bernardo
O avanço da tecnologia nas últimas décadas contribuiu para que as distâncias fossem encurtadas, facilitando a comunicação entre as pessoas. Quem imaginaria, três décadas atrás, que a partir de um computador poderia entrar em contato com qualquer pessoa ao redor do mundo? Aliás, ninguém sabia nem o que era um computador. Naquela época até os telefones residenciais eram raros em São Luiz Gonzaga. Para efetuar uma ligação local ou interurbana era preciso ir até a central telefônica da prefeitura municipal, onde existia uma telefonista responsável pelo serviço, que tentava várias vezes até conseguir a tão desejada linha, algo que às vezes poderia levar dias. Era mais cômodo ir diretamente a casa de quem desejasse falar do que esperar para ligar. Não vivenciei esse tempo, afinal nasci no final dos anos 80, mas desde criança escuto a mesma história de minha mãe e meus avós, que uma vez, em 1977, levaram três dias para conseguir uma ligação para Santana do Livramento na fronteira com Uruguai. Essa era a tecnologia disponível na época e todos se contentavam com isso, talvez escrever uma carta redigida a punho, óbvio, alcançasse um resultado mais rápido.
Outro avanço era a televisão, que estava se consolidando como um bem de consumo das famílias brasileiras. Era preto e branco, mas quem se importava com isso, afinal assistir uma novela ou então o telejornal era algo revolucionário para a época. As crianças brincavam na rua e cresciam sadias, pois não ficavam horas e horas na frente de um vídeo-game, computador ou televisão, assistindo um monte de porcarias. Gastavam suas energias ao soltar pipa, descer uma ladeira com carrinho de rolimã, brincar com ioiô, pique esconde ou então jogar bolita. Não existia a criminalidade dos dias de hoje, que muitas vezes impede que a gurizada saia de casa para brincar, ficando assim viciados em jogos eletrônicos que estão cada vez mais presentes.
Para os mais velhos sair sozinho à noite e voltar pra casa as quatro ou cinco horas da manhã não apresentava risco algum de ser assaltado e os pais dormiam tranqüilos, pois sabiam que seus filhos voltariam seguros para casa. Os carros do ano eram os Chevettes tubarão, Corcéis I, Opalas, entre outros. A Guerra Fria ainda estava no seu auge, colocando em lados opostos os EUA e a União Soviética e tudo que não fosse bom era considerado um comunismo pelo senso comum, resultado da propaganda capitalista anti-soviética da época, promovida pelos governos militares brasileiros. São Luiz Gonzaga tinha sinaleiras que funcionavam e as ruas não tinham buracos. As fotografias serviam para registrar momentos especiais, afinal o filme era caro, e ainda tinha que comprar o flash, que era avulso e servia para poucas fotos. As pessoas se conheciam, cultivavam valores como a amizade, o companheirismo, a honestidade, o caráter, entre outros. Os tempos eram outros…
Mas as décadas passaram, chegamos até os anos 2000, na era da informação e as coisas mudaram muito. Os telefones foram aprimorados, apareceram os aparelhos celulares, cada vez menores e com mais recursos disponíveis. Quem imaginava nos anos 70 carregar um telefone no bolso para todos os lados? Surgiram os computadores, que com o passar do tempo ficaram mais eficientes, tornando-se até portáteis e a internet revolucionou as comunicações, pois além de informar o que acontece em qualquer parte do mundo, permite realizar conversações em tempo real. Nos anos 70, realizar uma conversa em tempo real somente pessoalmente mesmo, esse era o melhor e mais eficiente mecanismo.
Já os automóveis viraram sonho de consumo das pessoas, para ser bom tem que estar rebaixado, com som alto e quanto mais potente melhor, ou então que seja importado. O trânsito está cada dia pior, seja nas grandes cidades ou nas pequenas como São Luiz Gonzaga, onde as sinaleiras ainda existem, continuam nos mesmos lugares de trinta anos atrás, porém não funcionam mais e as ruas têm verdadeiras crateras. Surgiram as câmeras fotográficas digitais, que dispensam filme e flash, permitindo obter inúmeras fotos, que podem ser descartadas ou aproveitadas e eventualmente são reveladas. E a União Soviética, bom, essa só existe nas páginas dos livros de história e na memória daqueles que ainda consideram todos os acontecimentos funestos ou imorais como sendo um comunismo.
A tecnologia fez mudar o padrão de vida, trazendo acesso rápido a informações, além de facilitar a comunicação e aproximar as pessoas. Surgiram os programas de mensagens instantâneas, que permitem a conversação em tempo real com qualquer parte do mundo e o site de relacionamentos Orkut. Esse último tornou-se a maior febre brasileira dos últimos tempos, sendo o nosso país o recordista de acessos, principalmente por parte dos jovens. Eles preferem ter mil amigos no Orkut, sendo que a maioria nem conhecem, do que ter poucas, mas verdadeiras amizades. Quantas particularidades são mostradas a pessoas que nunca viram, que não conhecem sua índole e nem seu caráter. Virou mania adicionar qualquer desconhecido somente para aumentar o número de amigos, colocar fotos sem conteúdo na frente do espelho de um banheiro, ou então tirar fotos quando não tem nada para fazer só para colocar no Orkut, ou ainda postar aquelas do fim-de-semana, da sala de aula, da casa da tia, da viagem pro interior do município e por aí vai. Bem melhor, ou menos pior, era a versão antiga, que comportava apenas 12 fotos, o que tornava a seleção fotográfica com mais qualidade e mais interessante.
Ainda existem os depoimentos, esses sim, um espaço de falsidade onde as pessoas podem escrever algumas palavras sobre os amigos. Só escrevem coisas boas, como se as pessoas fossem perfeitas em todos os sentidos, não apresentando defeitos. Até aquelas que se detestam escrevem belas palavras, mas desejam completamente o contrário. Porque as pessoas não escrevem os defeitos, as manias e o que não gostam? Pelo menos estariam sendo sinceras e seria mais interessante.
Além do mais, o Orkut atrapalha a vida das pessoas. Alguns relacionamentos acabam por causa dele, quando a amiga do namorado (ou vice-versa) deixa um recado e a noiva vê, causando uma histeria de ciúmes que resulta no fim no relacionamento e também do Orkut de ambos. Ou então quando aquela amiga de infância sente-se abandonada, porque não recebe mais com tanta freqüência recados daquela pessoa que conheceu na primeira série ou daquela que cresceu junto brincando na mesma rua. O pior de tudo é quando aquele casal completamente apaixonado faz um perfil único no Orkut, aí ninguém sabe quem é quem, porque o rapaz adiciona homens e a moça, por sua vez, somente mulheres.
A maioria dos jovens de hoje alegam que não conseguiriam viver nos anos70, sem computador e celular, dizendo que não sabem como seus pais conseguiam. Mas eles viviam tão bem quanto nós, e devia ser muito bom aquele tempo. Hoje riem e acham estranho o passado, mas provavelmente em 2050 as pessoas vão olhar pra trás e achar muito estranho e esquisito como era a vida em 2010 e como era o Orkut, que até lá vai ser algo completamente ultrapassado, ridículo e antiquado para os padrões futuristas.
Você, ao terminar de ler essas palavras, deve estar me retrucando que o Orkut serve para reencontrar amigos, marcar encontros, namorar ou conhecer pessoas legais. Tudo bem, concordo com isso, pois sabendo usá-lo, ele torna-se uma baita ferramenta. O que não pode acontecer é deixá-lo virar uma extensão da sua vida, pois as pessoas não precisam ficar sabendo de tudo que você faz ou fez; se brigou com a mãe, com o pai, ou namorado (a); se vai viajar no final de semana; se foi mal na prova; se faltam 10 dias pro seu aniversario, etc. Ainda mais agora, com a possibilidade de escrever frases nos perfis, isso virou mania constante, além é claro da postagens de centenas e centenas de fotos. Só peço uma coisa, por favor, não me questione a respeito desse texto através do Orkut.
Às vezes, um pouco de saudosismo e nostalgia não faz mal a ninguém!
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eu gosto mtu do orkut, mas adoraria ter vivido na epoca de 70,80… ia se mtu massa sai brinca na rua, o que agr naum eh mtu seguro por causa dos carros em alta velocidade :S seria mtu legal! minha mae me conta as historia da sua infancia! era mtu legal !! as musicas entaum!! ganha longe das de hoje em dia!!( pelo menos eh o eu axo)
Parabéns, Ricardo! Seu jeito meio “caladão”, surpreendeu. Bom conhecimento dos fatos, (parece que vivenciou tudo isso); ótima argumentação, expressa num linguajar claro e consistente. Texto muito bem escrito, um pouco longo mas bastante agradável ! Ampla retrospectiva de época, destacando o que realmente merece notificação. Gostei!!…
Tu esqueceu de comentar a respeito da Colheita Feliz.
Ótimo! É assim mesmo, lembro dos tempos antigos, principalmente a década de 1980, foi maravilhosa, não deveu em nada pras décadas seguintes. Claro que a tecnologia veio para auxiliar nossas vidas, ou não, pois nunca esqueci da frase “o computador veio resolver problemas que não tínhamos antes dele”.