A Coluna Prestes: de Santo Ângelo para o Brasil – Coluna do Leitor

 Ricardo Bernardo

A Coluna Prestes foi a maior marcha revolucionária da História em termos de quilometragem percorrida (25 mil), podendo ser comparada apenas às do rei macedônico Alexandre, o Grande. E também nunca foi derrotada, pois Prestes era um grande estrategista que conseguia despistar com maestria as tropas militares do governo. Até para Lampião, o rei do Cangaço, foi oferecido dinheiro, anistia e a patente de capitão do Exército se ele capturasse Prestes. Reza a lenda que Lampião não se interessou muito pela idéia, pois tinha medo de não conseguir capturá-lo e ter manchada sua reputação. No mínimo, seria uma batalha muito interessante, de até então dois invictos: Lampião versus Prestes.

Luís Carlos Prestes nasceu em Porto Alegre em 3 de janeiro de 1898. Formou-se engenheiro militar pela atual Academia Militar das Agulhas Negras, no ano de 1919. Durante a década de 20, Prestes liderou o movimento chamado Tenentismo, que ganhou força entre alguns segmentos militares, pois tinha como objetivo derrubar a oligarquia café com leite da presidência da República. Esta oligarquia caracterizava-se pelo revezamento de presidentes paulistas e mineiros na presidência do Brasil, eleições fraudulentas e outras arbitrariedades.

Um dos principais acontecimentos que marcaram o movimento Tenentista foi a revolta “os 18 do forte de Copacabana”, em 1922. Organizada por militares, tinha como objetivo protestar contra a posse do presidente Artur Bernardes e a crise pela qual passava a política brasileira da época. Depois de um sangrento conflito, poucos militares sobreviveram, dentre eles Siqueira Campos e Juarez Távora, que viriam a ser aliados de Prestes em sua marcha. Apesar de Luís Carlos Prestes não ter participado da revolta por estar enfermo, ele foi mandado para o Rio Grande do Sul, mais precisamente para Santo Ângelo, com objetivo de se manter longe do Rio de Janeiro, bem como Campos, Távora e outros revoltosos que participaram da tomada do forte.

Ao chegar em Santo Ângelo, Prestes passou a trabalhar como engenheiro ferroviário na construção da estrada de ferro Santo Ângelo/Comandaí. Mas talvez por um descuido dos governantes da época, grande parte dos revoltosos foi parar no Rio Grande do Sul. Siqueira Campos foi para São Borja e Juarez Távora para Uruguaiana, o que facilitou a comunicação entre eles, para posteriormente organizarem a marcha, em 1924. Ainda contavam com o apoio dos civis do Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo, recrutados por Prestes, que os ensinou a ler e escrever e assim repassar sua ideologia política, conseguindo um grande número de adeptos, não só dentro do próprio Batalhão, como também nos arredores da região.

Em São Luiz Gonzaga, o 3º Regimento de Cavalaria Independente (3º RCI, atual 4º RCB), então localizado no antigo colégio jesuíta, levantou-se em apoio a Prestes, sob o comando do Tenente João Pedro Gay. Ao todo, os homens aliados a Luís Carlos Prestes eram em torno de 1500 e as tropas do governo que o perseguiam possuíam quase 15000 integrantes. Mesmo com a inferioridade numérica, os homens de Prestes nunca foram capturados, pois ele sabia muito bem como despistar seus inimigos.

A grande pergunta que não quer calar é “de onde a Coluna Prestes partiu”, seria de Santo Ângelo ou de São Luiz Gonzaga? O próprio Luís Carlos Prestes, em seus relatos orais através de entrevistas concedidas quando esteve na região em 1984, nas comemorações dos 60 anos da Coluna, deixou em aberto esta questão. Segundo Prestes, ele e seus homens vieram para São Luiz Gonzaga, pois as tropas do governo teriam mais dificuldade em atingir a cidade, que naquela época ainda não possuía estrada de ferro. Sendo assim, ficou estabelecido que aqui em São Luiz fosse o ponto de encontro das tropas vindas de Uruguaiana, Alegrete, São Borja e demais localidades que aderissem à marcha. Mas para aumentar ainda mais a polêmica, quando foi entrevistado em Santo Ângelo, Prestes afirmou que a marcha partiu daquela cidade, conforme gravação disponível no acervo do Centro de Cultura Missioneira da URI. Já em São Luiz Gonzaga, em entrevista realizada na Câmara de Vereadores, ele afirmou que ela partiu realmente daqui, só que gravação se perdeu e ninguém sabe onde ela se encontra ou se ainda existe. Por favor, se alguém souber, manifeste-se!

Em Santo Ângelo sabe-se onde era a casa de Prestes; onde ele se reunia com seus aliados; de onde a Coluna foi organizada e de onde ela partiu em direção a nossa cidade. Mas em São Luiz, como foi a tomada do quartel? Como foi a reação da população? Ela considerava Prestes um bandido ou um herói? Quais estabelecimentos foram saqueados para abastecerem de mantimentos as tropas? O único vestígio que a cidade tem para oferecer é a Gruta Nossa Senhora de Lourdes, erguida em 1926, como pagamento de uma promessa por não ter acontecido aqui um conflito entre os homens de Prestes e as forças governamentais. Isso para os céticos representa pouco, pois as pessoas a visitam muito mais pela questão religiosa do que histórica.

Já em Santo Ângelo existe o Memorial Coluna Prestes, que reúne grande acervo de materiais referente a este assunto. Lá se pode encontrar até mesmo uma foto da inauguração da Gruta Nossa Senhora de Lourdes, em 1926, com Monsenhor Wolski e um grupo de meninas em primeiro plano, algo que aqui em São Luiz Gonzaga, por incrível que pareça, não existe. Além do Memorial, Santo Ângelo possui outros atrativos que rememoram a passagem de Prestes pela cidade, como o Monumento a Coluna Prestes, projetado por seu amigo Oscar Niemeyer e a Marcha da Coluna Prestes, uma caminhada que se realiza da cidade até o distrito de Comandaí. Além do mais, os filhos de Prestes fizeram várias doações de pertences do pai para a organização do Memorial.

Por que será que essas doações foram feitas para Santo Ângelo e não para São Luiz Gonzaga? Por que será que Niemeyer projetou um monumento à Coluna Prestes para Santo Ângelo e não para São Luiz Gonzaga? Por que a Marcha da Coluna Prestes é realizada em Santo Ângelo e não em São Luiz Gonzaga? Por que o Memorial da Coluna Prestes está em Santo Ângelo e não em São Luiz Gonzaga? Por mais que nosso poder público tivesse boa vontade para estruturar a cidade como berço da Coluna Prestes, essa disputa já foi perdida, pois em todo o Brasil Santo Ângelo é conhecida como o local onde partiu a Coluna, mesmo isso sendo uma verdade distorcida. É impossível fazer com que o imaginário brasileiro mude e São Luiz Gonzaga seja reconhecida como local de partida da Coluna Prestes. Não basta afirmar que a marcha partiu daqui, é preciso ter atrativos comprovando isso e o que mostrar para os visitantes, como faz Santo Ângelo, e não apenas uma conversa de boca em boca como acontece em São Luiz Gonzaga. Na cidade sequer existe materiais referentes aos dois meses de permanência de Prestes.

Agora, para e pense: qual das duas cidades tem mais atrativos sobre a Coluna Prestes para oferecer? Depois disso, qual das duas merece ser considerada local de partida da marcha? É extremamente difícil para São Luiz Gonzaga competir com Santo Ângelo nessas circunstâncias. Nesse quesito, Santo Ângelo está bem a frente de nós, pois preserva a memória coletiva de seus habitantes, e não é à toa que afirma que a Coluna Prestes partiu mesmo de lá.

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