O nascimento do mito – Coluna do Anderson

Por Anderson Amaral 

Estamos no ano de 1720, redução de São Luiz Gonzaga. A vida corre tranquila, os índios trabalham, oram e os padres administram a redução com devoção.

Acaba de chegar o padre Alonso, nascido no Paraguai ele ingressou muito cedo no seminário religioso, tinha muita devoção a Deus e seguia com rigidez as normas da Companhia de Jesus. É designado pelo Cura da Redução para administrar o setor agrícola e de criação de animais, visto que era um estudioso da área.

Passam-se alguns meses e o trabalho do padre Alonso é notado por todos, desenvolveu projetos de irrigação e adubação nas lavouras e construiu estábulos modernos para o gado, colocando em prática o que viu na Espanha, dois anos antes.

Alonso nunca tinha se interessado pro mulheres, nem no seminário havia se entregado aos prazeres carnais com os colegas, fato um tanto comum entre aqueles jovens. Mas há alguns dias vinha trocando olhares com a jovem e bela Ibiara.

Durante a noite Alonso ora muito para afastar os desejos mundanos, chegava à mutilação e escarnificação, cortava na carne para a dor tomasse seu corpo. Nada fazia efeito. A índia notando o interesse do padre começou a seduzi-lo.

– Meu Deus o que faço, ela é só uma menina! Pensa o padre. Enquanto observa na lavoura.

Ela se aproxima para trazer água e Alonso nota a ponta dos seios que parecem que vão furar o vestido da índia. Ela muito esperta sabe que o padre a deseja e se insinua cada vez mais.

Alonso passa a se masturbar para afastar o desejo, mas é pior! A coisa piora quando o Cura ordena que o jovem passe a pernoitar em alojamento próximo ao estábulo onde estão as vacas e ovelhas que darão cria, assim o padre poderia acompanhar e auxiliar os partos, visto que muitos animais estavam morrendo nesta hora.

Ibiara revolve atormentá-lo. Vai visitá-lo à noite. Na primeira noite ele resiste, e obriga a índia orar com ele. Pela manhã relata o fato ao Cura e pede que ele mande a índia para outra redução, mas ele ordena que ela seja castigada e permaneça na redução.

Após alguns dias ela retorna ao alojamento provisório de Alonso. Ele está rezando quando a vê chegar, sob a luz da lamparina ela deixa cair o vestido, seu corpo é perfeito. O padre paralisa. Enquanto ela começa a passar a mão pelo corpo desnudo o padre aumenta o tom da reza. Quando toca os seios ela geme de prazer. Ele tenta retira-la do quarto, ela o agarra e eles fazem sexo por horas seguidas.

Quase que diariamente aquela cena se repete, quando Ibiara volta para a sua casa o padre Alonso começa a autoflagelação, não dorme mais, está transtornado.

O Cura nota a mudança e suspeita que algo está errado, chama Alonso e o pressiona até que ele confessa:

– Padre, eu vou abandonar o hábito vou casar com Ibiara.

– Jamais! Grita o superior. Isso seria uma catástrofe, os índios jamais nos respeitariam, perderíamos a autoridade.

– Mas senhor…

Pela tarde Alonso já está embarcado, rumo a Buenos Aires e dali para a Espanha. Quando chama Ibiara para conversar, o Cura toma conhecimento de sua gravidez. Manda chamar padre Francisco.

– Padre Francisco, leve esta menina até o Cotiguaçú e ponha juntos as viúvas e crianças órfãs.

– O que aconteceu?

– Ela está grávida, o marido morreu de varíola.

Passam-se alguns meses, nasce um menino, o pai vive na Espanha, atormentado pela saudade, mas segue na Ordem. A mãe aceita mentir sobre o ocorrido, sob pena do seu filho ser retirado dos seus braços.

O jovem chamado José cresce com rapidez, tem a inteligência do pai e o despreendimento e esperteza da mãe. Até que Ibiara morre de varíola.

O menino é levado para São Miguel, junto a ele vai uma carta onde está escrito que José era filho de um cacique. Seus pais morreram de varíola, ele deveria ser criado com os padres e ser preparado para que um dia fosse um grande líder.

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