Prisioneiros de consciência. A China e o seu “grande salto a trás”

Charles Leonel Bakalarczyk

    A condenação do ativista pelos direitos humanos Tan Zuoren é um daqueles acontecimentos que revela a que ponto a sanha persecutória do aparato de Estado pode chegar na tentativa de manter o status quo. E tudo em nome do povo ou de uma doutrina sectária.

   O chinês Tan Zuoren, que é um ambientalista e escritor, foi absurdamente condenado a 5 anos de prisão por pretender tornar pública uma lista de crianças mortas no terremoto de 12MAI 2008 em Sichuan, na China.

   Para quem não lembra, o terremoto de 2008 foi o desastre natural mais letal que se tem notícia na China, matando quase 70 mil pessoas e deixando pelo menos 20 mil desaparecidos.

   Segundo revelou o governo Chinês, cerca de sete mil escolas haviam desabado com os tremores, matando mais de 10 mil chinesinhos.

Para o assombro dos pais das vítimas, prédios vizinhos às escolas que ruíram ficaram intactos, o que provocou indignação geral.

   Zuoren, que organizou um grupo de voluntário para socorrer as vítimas do terremoto, foi procurado pelos pais das crianças mortas, que denunciaram a construção precária das escolas, por conta de corrupção e omissão. Essa teria sido a causa dos desabamentos e da morte dos alunos.

   Em face às denúncias, Zuoren investigou as razões das mortes e, junto com acadêmicos, realizou estudos com vistas a melhorar os padrões de construção. Ao término de esforço, elaborou um relatório contendo os nomes das crianças falecidas no terremoto e demonstrando as deficiências que propiciaram o colapso das escolas.

   Por conta disso, o ativista foi detido em MAR2009 pelas forças de segurança pública. A acusação formal, no entanto, ficou centrada em outro elemento: a crítica de Zuoren ao Partido Comunista Chinês e à atuação das autoridades que reprimiram, com a utilização do Exército Popular de Libertação, as manifestações por reformas na Praça da Paz Celestial, em 1989.

   Zuoren foi julgado em AGO2009, mas a sentença somente foi divulgada agora em FEV2010, cinco meses depois do veredicto, o que por si só já é uma violência.

   Na decisão do “Tribunal Popular”, consta que Zuoren foi condenado por “incitar a subversão contra o poder do Estado” ao escrever um artigo sobre a repressão na Praça de Tiananmen. A investigação acerca das circunstâncias da morte das crianças de Sichuan, que teria sido o verdadeiro motivo da sua condenação, sequer foi mencionada na sentença.

   O julgamento decorreu à porta fechada e as testemunhas de defesa, tais com Ai Weiwei, um dos projetistas do “Ninho de Pássaro”, Estádio Olímpico de Pequim, foram impedidas de comparecer no tribunal. Segundo os advogados, a defesa foi impedida de apresentar suas testemunhas para serem ouvidas, nem foi autorizada a exibir vídeos que havia preparado.

   Conforme revela o Observatório de Imprensa, vários dissidentes políticos e ativistas em defesa dos direitos humanos foram condenados à prisão desde a véspera dos Jogos Olímpicos de 2008. Em dezembro último, uma corte sentenciou o ativista pró-democracia Liu Xiaobo a 11 anos de prisão por ter ajudado a escrever uma petição online pleiteando reformas democráticas no país.

   Em FEV 2009, agentes de segurança chineses fizeram uma visita à casa de Gao Zhisheng, um dos mais proeminentes advogados de direitos humanos na China, e levaram-no para um “breve interrogatório”. O homem nunca mais foi visto e o governo se recusa a responder qualquer questão sobre seu paradeiro ou estado de saúde.

   A China está sinalizando ao mundo o endurecimento do regime. Muitos chineses se encontram encarcerados como prisioneiros de consciência após julgamentos movidos por razões políticas. Também cresce o número de pessoas que permanece sob detenção domiciliar ou que são vigiadas de forma ostensiva pela polícia, que monta guarda na frente de suas residências.

   E a situação possivelmente irá piorar. A venda de US$ 6,4 bilhões em armas a Taiwan pelos EUA e os gestos de apoio americano ao dalai-lama se prestam como combustível para o governo agregar apoio interno (nacionalismo).

   Mao Tse-tung, quando proclamou a República Popular da China, declarou que o “povo chinês se pôs de pé”. Pois o regime de tutela adotado pelo governo Chinês está colocando a cidadania chinesa de joelhos.

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