Sepé, a resistência solidária como herança – Coluna do Charles

 

Charles Leonel Bakalarczyk

 
O índio missioneiro Sepé, batizado com o nome de José Tiaraju, possivelmente nascido na redução de São Luiz Gonzaga, em 2009 foi declarado oficialmente herói nacional. Salvo engano, a iniciativa do projeto se deu em 2005, quando dos preparativos com vistas às comemorações dos 250 anos da morte do índio missioneiro, por esforço do deputado federal Marco Maia (PT).
 
Como novo herói brasileiro, seu nome foi inscrito no Livro de Aço dos Heróis da Pátria, que está guardado no Panteão da Liberdade e da Democracia, localizado na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O nome de Sepé passou a figurar ao lado de nomes históricos como Tiradentes, Plácido de Castro e Zumbi dos Palmares.

Se para muitos o reconhecimento como herói nacional é algo menor, até burocrático, basta lembrar que somente onze pessoas foram registradas no Livro de Aço, sendo que Sepé é o primeiro índio a figurar na relação.

Sepé, índio guarani, vivia em um dos Sete Povos das Missões, que no sec. XVIII pertencia à Espanha (região hoje situada no noroeste do RS). Líder comunitário (foi corregedor – espécie de prefeito – da Redução de São Miguel) e “militar”, Sepé é considerado um santo popular e herói missioneiro no Estado do Rio Grande do Sul, onde participou como estrategista e comandante das milícias indígenas que atuaram contra as tropas luso-brasileiras e espanholas na Guerra Guaranítica.

A Guerra Guaranítica, vale dizer, foi produto da resistência indígena e resposta às demarcações de terras decorrentes da assinatura do Tratado de Madrid, em 1750.
 
O referido acordo entre as coroas de Espanha e Portugal previa a permuta da Colônia do Sacramento, que era dos lusos, com o território dos Sete Povos das Missões, dos espanhóis, na margem esquerda do Rio Uruguai, e implicava a retirada da população guarani do território missioneiro que ocupavam. Cerca de 50 mil índios deveriam abandonar suas casas, igrejas, lavouras, gado e terras nas Missões.

Os índios missioneiros resolveram lutar para não serem desterrados. Afinal, o despejado do lugar em que se vive é o ato mais estúpido que um ser humano pode impingir a outro. A insurreição contra a decisão de Portugal e Espanha foi conduzida por Sepé Tiaraju e durou de 1753 a 1756, eis a sua proeza e o seu mérito.
 
Sinale-se que o Tratado de El Pardo (1761) sustou o Tratado de Madri e os Sete Povos voltaram ao domínio espanhol, o que demonstra o absurdo do despejamento dos índios missioneiros. As disputas territoriais entre Espanha e Portugal se seguiram e em 1777, com o Tratado de Ildefonso, a Colônia e os Sete Povos ficaram os dois com a Espanha. Somente em 1828, pelo Tratado do Rio de Janeiro, com a criação do Uruguai, a Colônia do Sacramento se torna território uruguaio e a terra dos Sete Povos passa a pertencer efetivamente ao Brasil.

Rubens Vidal Araújo, em “Os Jesuítas dos Sete Povos”, conta como Sepé foi abatido em 7 de fevereiro de 1756. Naquele dia, Sepé, genial e ardiloso, havia preparado mais uma cilada para os invasores portugueses, que marchavam às margens do rio Guacacay (hoje rio Vacacaí), transposto no dia anterior.

Usando a tática de “guerra de guerrilha”, empregada desde o ataque à fortaleza de rio Pardo, Sepé reuniu naquele dia algumas reses numa coxilha próxima ao rio em que se encontravam os portugueses. Esfomeados, alguns soldados trataram de aprisionar o gado, momento em que Sepé e seus guerreiros, aproximadamente 200, massacraram os inimigos.

Feito o ataque, os índios missioneiros se dissiparam no mato. Joaquim Viana, comandando 800 soldados portugueses e espanhóis, atirou-se no encalço de Sepé. Na entrada do mato, às margens da sanga da Bica, afluente do rio Guacacay, num local chamado Botovi (atualmente território do município gaúcho de São Gabriel), o cavalo de Sepé deu um passo em falso (tropeçou num buraco de tatu, segundo o Padre jesuíta Bernardo Nussorffer) e derrubou Sepé que, por ser excelente montador, caiu em pé. Um soldado português o golpeou com uma lança e Viana, covardemente, deu-lhe o tiro fatal, extinguindo o índio de 34 anos.

Alega-se por aí que Sepé e outras lideranças indígenas não comandavam a resistência, mas sim os jesuítas. No entanto, como ensina Paulo Suess (in O Anti-herói Sepé Tiaraju – Comemoração e Resistência), os jesuítas receberam ordens do padre Lopes Luís Altamirano, emissário do seu Superior Geral, para que demonstrassem obediência às exigências do Tratado de Madri. Somente alguns poucos gatos-pingados, como Lorenzo Balda, cura de São Miguel, e seus dois auxiliares, Miguel de Soto e Diego Palácios, ficaram ao lado dos índios. Como se percebe, não fosse a atuação dos índios, entre eles Sepé, não haveria resistência.

De acordo com registros históricos, Sepé não aceitou supostas virtudes do cristianismo colonial, como a submissão ao mais forte e a obediência tutelar. Foi autônomo, seguiu seus próprios valores e sentimentos de pertença, mesmo imerso numa cultura jesuítica de heteronomia.

Sepé também foi autêntico líder político porque teve a capacidade de articular, em conjunto com outras lideranças indígenas, a resistência guaranítica, reunindo os Sete Povos em uma espécie de Confederação. Não lutava por si, nem somente pela sua comuna, mas pelos Sete Povos. Líder solidário.

Como chefe de resistência, além de destemor incomum, desenvolveu excelente tática de guerra. Sabendo do poderio dos inimigos, evitava confrontos abertos, apostando na guerrilha. Não fosse traído por um buraco em que seu cavalo prendeu o pé e lhe derrubou, certamente Sepé teria evitado o confronto de Caiboatê, quando mais de 1.500 guaranis foram massacrados pelo exército que uniu portugueses e espanhóis (vele lembrar que Sepé pretendia derrotar os invasores não em campo aberto, mas na picada da Serra do Tapes).

Ninguém tira de Sepé o mérito de ser o primeiro na América do Sul a fazer frente a dois exércitos organizados, comandados por generais europeus experientes, Gomes Freire e Andonaegui. Esse último havia lutado na África e na campanha na Silícia. O único equívoco “militar” do Herói da Pátria foi estar sempre no centro da zona de operações, o que possibilitou ser facilmente morto pelo inimigo.

Conforme o historiador Tau Golim (in A Guerra Guaranítica), José Custódio de Sá, em seu “Diário da Expedição e Demarcação da América Meridional e das Campanhas das Missões do Rio Uruguai”, escrito entre 1750 e 1761, ao narrar a morte de Sepé, afirmou que “era entre os seus de grande valor e astúcia, e, por isso, comandava os demais”. Dito pelo inimigo.

Alguns historiadores, na tentativa equivocada de desmerecer Sepé, retiram dele a autoria da famosa frase “Essa terra tem dono”. No entanto, segundo pesquisadores, seu registro se encontra nos arquivos do Exército Espanhol de Demarcação e Sepé a teria pronunciado em fevereiro de 1753, às margens do rio Camaquã, entre os atuais municípios suul-rio-grandenses de Bagé e Caçapava do Sul.

Na trilha do que expus, não percebo Sepé sob o viés do mito fundador, mas do homem real, de carne e osso, que, mesmo limitado pelas circunstâncias do seu tempo e pelas condições do seu modo de vida, soube pelear corajosamente pela causa da comunidade a que pertencia, fazendo o que estava ao seu alcance.

Tenho para mim que a herança mais importante deixada pelo homem Sepé é o paradigma da resistência coletiva contra a injustiça praticada pelos mais fortes, valor esse que se revela como uma das mais extraordinárias criações culturais e axiológicas dos humanos.

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