Arno Schleder
Na Grécia antiga, estrangeiros eram acolhidos como enviados dos deuses. Na Índia rural contemporânea, são sempre recebidos como uma divindade. Entre os beduínos do deserto, convertem-se em protegidos de seu anfitrião e de seu clã.
A hospitalidade tem dois aspectos; um, geral, que se refere à convivência em sociedade e se confunde com o cerimonial e a etiqueta de cada povo; o outro, específico, que estabelece relações especiais entre anfitriões e convidados.
Entre os beduínos, a quem devemos primeiramente nos reportar para compreender a natureza profunda da hospitalidade árabe, essas relações, baseadas no código de honra do deserto, dão ao hóspede, que passa a ficar sob proteção do anfitrião, direitos exorbitantes. De simples ato de liberdade, que supõe acolher um estrangeiro por um tempo mais ou menos prolongado, a hospitalidade converte-se em autêntica instituição, que confere ao desconhecido acolhido, privilégios quase sagrados.
É provável que tais mudanças de “status” não sejam exclusivas dos beduínos. Como assinala o historiador Fustel de Coulanges em “A cidade Antiga”, a comida preparada sobre um altar partilhada entre diversas pessoas estabelece entre elas uma união indissolúvel e faz do estrangeiro, que participou dessa refeição, um membro da comunidade religiosa.
Mas a hospitalidade tradicional dos árabes do deserto tem por sua vez, maior abrangência em sua concepção e menos limitações em suas conseqüências de forma que um copo de água no qual o estrangeiro apenas umedece os lábios, lhe dá todos os privilégios de um suntuoso banquete. E nessas regiões áridas, onde os beduínos vivem como nômades, a necessidade de sobreviver colocou um freio na lei do mais forte, substituindo a anarquia por um conjunto de instituições salutares, entre as quais a hospitalidade.
Por ter recebido alimento, um estrangeiro pode circular livremente no deserto, sem maiores limitações.
A primeira regra da hospitalidade árabe é que seja gratuita, mesmo que prolongada por vários dias. O anfitrião sentir-se ia ofendido se lhe fosse oferecida uma recompensa em troca de sua acolhida, mas essa gratuidade não constitui o traço essencial do comportamento dos árabes para com o visitante. Na verdade vigoram entre eles algumas regras de determinadas etiquetas para com o anfitrião e outras ajustadas ao hóspede.
Os poetas do deserto não poupam elogios ao homem que acolhe com solicitude o visitante, o hospeda e faz todo o possível para que se sinta à vontade. Mas o que o poeta mais admira não é tanto a abundância e o requinte do banquete. Ele leva em consideração, sobretudo, a maneira de receber.
Ultimamente se fala muito no desenvolvimento do turismo na região das missões, mas acredito que muitos de nós teremos que passar por um rigoroso aprendizado para nos tornarmos verdadeiros anfitriões; conhecer nossa história aprender a sorrir para que o visitante nos conheça melhor e se sinta realmente em casa. Conheço pessoas em São Luiz que não cumprimentam nem os vizinhos, tem a maior dificuldade em lhes dizer um “bom dia” ou “boa tarde” ou até mesmo um simples sorriso.
Receber bem os visitantes é uma questão de cultura e também de educação.
- Hospitalidade: para os beduínos do deserto, uma questão de honra.
- Hospitalidade: para os beduínos do deserto, uma questão de honra.
- Visitante fazendo refeição numa tenda beduína
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