A história que você vai ler a seguir foi encontrada em um pequeno baú no porão de uma casa antiga que foi demolida no bairro do Passo na cidade de São Borja – RS. Faço o relato na íntegra. (A linguagem foi atualizada para melhor compreensão).
Há dias nos preparamos para o ataque final dos paraguaios, já tivemos vários enfrentamentos ao longo do rio Uruguai, as forças são desproporcionais: eles contam com uns cinco mil militares, nós não chegamos a uma centena, sendo muitos civis engajados ao corpo da tropa voluntariamente para tentar suportar a carga inimiga até que o 1º Batalhão de Voluntários da Pátria chegue para nos socorrer.
Em um combate na noite anterior fui ferido. Alguns soldados tentavam passar para o lado de cá do rio a bordo de balsas improvisadas. Estávamos em posição de tiro, poderíamos abatê-los a qualquer momento, mas nosso comandante ordenou que os capturássemos vivos, afinal de contas eram só dois e nós tínhamos nove homens. Mesmos com a escuridão podíamos observar os dois em pé na canoa. Com madeiras compridas eles impulsionavam a jangada.
Para nossa surpresa estavam deitados na balsa mais seis homens armados e em posição de tiro. Mas quando os vimos já era tarde, tínhamos dado voz de prisão e descido o barranco, o tiroteio foi intenso, matamos todos eles, só que perdemos três companheiros e eu acabei levando um tiro na perna. Além da dor e do sangramento que ainda não cessou tenho medo da infecção que pode acontecer.
Acabamos de receber o informe que o inimigo atuará esta noite, dentro em pouco estaremos indo para o rio. A população que possuía alguns bens já está saindo da cidade, seus tesouros sendo enterrados e os de menor poder aquisitivo tentam se esconder no mato, já sabemos que os inimigos são cruéis, na Argentina fizeram barbáries, como estupros e torturas.
Se for verdade que o ataque se dará hoje, morreremos todos; mas não sem lutar, vou deixar esta carta em algum lugar seguro, quem encontrá-la, se possível, mande-a para minha mãe, o endereço está no envelope.
Se morrer será em nome de liberdade, da minha família, do meu país. Como não posso me locomover pedirei ao capitão para ficar no grupo de frente, não sou herói, sou apenas um homem que cumpre a missão dada.
Que Deus tenha piedade de todos e acolha nossas almas!
São Borja, 10 de junho de 1865.
Alferes Damião Dornelles Valentim
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