A torpe desforra – Coluna do Charles

 Charles Bakalarczyk
  Tristemente as Organizações Globo, maior império de mídia da América Latina, com faturamento líquido - em 2009 - superior a R$ 8 bilhões, aproveitam-se da tragédia ocorrida no Morro do Bumba (Niterói/RJ) para atingir uma ilustre figura histórica, Leonel Brizola. Ou, como bem esclarece o jornalista Paulo Henrique Amorim, três extintos: Getúlio, Jango e Brizola. Aquela mídia empresarial, de forma irresponsável, quer jogar na conta do trabalhismo os corpos que foram resgatados, sem vida, no meio do barro e do lixo que desceu pela encosta do morro.

   Obviamente que não tenho acesso a elementos suficientes para examinar se o Prefeito Jorge Roberto Silveira estava ciente ou não do risco de o aterro do lixão no Morro do Bumba vir abaixo. No entanto, acusá-lo por ter disponibilizado alguns equipamentos públicos, escola e serviço médico naquela comunidade é muito pouco, até porque essa era sua obrigação.


   Somente uma investigação criteriosa, promovida por instituições isentas (como, por exemplo, o Ministério Público), poderá determinar se a Prefeitura foi omissa ao não remover a favela construída sobre o aterro antes do acontecimento funesto. Pena que a Globo, sempre tão bem “informada” e cercada de “especialistas”, não noticiou preventivamente o perigo, evitando com isso o infortúnio.

   Em todo caso, o que está bem claro é o esforço hercúleo da Globo em responsabilizar, ainda no dia seguinte ao evento, o Prefeito Jorge Roberto Silveira. Aliás, sempre que refere o nome do alcaide-mor de Niterói, a reportagem faz menção reforçada ao seu partido, o PDT. Em outras tragédias recentes, resultantes de desmoronamento de morros, não se ouviu nome de governante e nem de partido político. A cidade de São Paulo ficou boa parte do verão debaixo d’água, havendo mortes de paulistanos. Para a Globo, Kassab, do DEM, deve ser prefeito de algum vilarejo no Saara…

  Renegando regras básicas de jornalismo, a Rede Globo concede ao prefeito-acusado alguns parcos segundos à apresentação de suas razões. Para atirar pedras, dedica dezenas de minutos e arregimenta uma penca de “especialistas”. Para a defesa, um mínimo de tempo. Esse é padrão Globo de jornalismo.


   Para quem não lembra, Brizola foi um dos primeiros – e poucos – líderes políticos que enfrentou com coragem o poderio econômico e midiático da família Marinho (vídeo abaixo).





   Brizola costumava dizer que Roberto Marinho era o “Stalin” das comunicações, sendo que as vozes dissidentes eram remetidas para a “Sibéria do gelo e do esquecimento” (ver vídeo abaixo).





   Mas a briga dos Marinho com o trabalhismo é mais antiga, vem da era Vargas. Continuou com Jango. Diz o jornalista Paulo Henrique Amorim (ler aqui):

“Os filhos do Roberto Marinho – eles não têm nome próprio – têm memória.
Eles sabem que o pai ajudou Vargas a meter uma bala no peito.
Eles perseguem Vargas até depois de morto.
O problema é que nós, amigos navegantes, também temos memória.
E sabemos que a UDN só chega ao poder com o Golpe”

   Se a Rede Globo está efetivamente apreensiva com o destino e segurança dos pobres de Niterói e do Estado do Rio de Janeiro, poderia denunciar a especulação imobiliária que arremessa os menos favorecidos para os morros, já que impedidos de acessar terrenos em áreas livres de risco.

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