Eu já estava acreditando nos contos da Carochinha, no Papel Noel e no Coelhinho da Páscoa. Abandonei o ceticismo e me tornei um crédulo quando a polícia civil gaúcha (a fração dela que atuava no caso, obviamente), mesmo contra indícios perceptíveis aos leigos, concluiu que o médico ELISEU DOS SANTOS, secretário de Saúde de Porto Alegre, foi vítima de latrocínio (em 26FEV2010).
Ao término do inquérito, a polícia civil concluiu que tudo não passou de uma tentativa de roubo de carro que terminou em morte. Eliseu teria morrido porque reagiu à ação de três assaltantes de carros.
O fato de Eliseu haver se queixado de receber ameaças de morte não foi levado em conta. Ora, onde há fumaça, há fogo. Parece que os policiais responsáveis pela investigação não ficaram curiosos em dar uma olhadinha no local donde partia a fumaça. Aliás, bisbilhotice não é defeito, tratando-se de policia.
Ocorreu que o Ministério Público realizou investigação complementar e concluiu que ELISEU foi morto a mando, havendo mais de meia dúzia de pessoas envolvidas no crime. Homicídio por encomenda e não latrocínio, portanto.
Segundo o Ministério Público, empresários do ramo da segurança privada, em represália pela rescisão de um contrato com a secretaria chefiada por Eliseu – e também para “queimar arquivo”, decidiram eliminá-lo.
E aí reside a fumaça que falei: antes de ser morto, Eliseu registrou ocorrência na polícia, dizendo que foi ameaçado de morte. Em depoimento, afirmou que as ameaças partiram da empresa que teve o contrato de segurança com a Secretaria de Saúde rompido após denúncia de corrupção.
Bueno, já que agora tudo faz sentido, afasto-me novamente da metafísica e deposito minhas fichas na razão e na ciência. Se houver mais investigação , talvez toda prodridão do caso “Instituto Sollus” e outras falcatruas no setor de saúde da Prefeitura de POA apareceram (ver aqui, entrevista com Marcos Rolim, 02MAR2010)
Contudo, o que mais surpreende não foi o novo rumo que o caso Eliseu está tomando, mas sim a maneira como o grupo RBS apresentou ao público a ação desenvolvida pelo Ministério Público. Deu a entender que aquele órgão tomou uma atitude quase irresponsável, desnecessária, de mera ruptura com a polícia civil (ler aqui).
Penso que a mídia empresarial não deveria estar preocupada com eventual discordância do Ministério Público em relação às conclusões do inquérito produzido pela policial civil, mas na busca da verdade que, naturalmente, é contraditória, complexa.
Não dá para esquecer que a RBS embarcou muito rápido na tese do latrocínio (em que lugar se esconde, afinal, o jornalismo investigativo?). Agora não quer assumir que errou feio na aposta que fez, muito menos pretende revelar as razões de sua escolha.
Charles Bakalarczyk
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Pobre mamífero lagomorfo da família dos leporídeos. Quem montou a imagem acima pensa, inconscientemente, que eu, de alguma forma, agredi a simbologia da Páscoa na parte inicial do meu texto. Compreensível.
No entanto, liquidar um coelhinho tão simpático com tiros pelas costas pode gerar revolta dos defensores dos direitos dos animais. Se bem que lebre frita é iguaria saborosa. E sem quebrar os ovos não se faz uma omelete…
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