Charles Leonel Bakalarczyk
Na “Divina Comédia”, Dante Alighieri (1265-1321) afirma em versos que Lúcifer, ao cair, abriu uma profunda depressão em forma de cone, bem debaixo de Jerusalém, tocando o centro da terra.
Segundo o poeta, a depressão infernal é formada por nove círculos concêntricos. As almas condenadas são distribuídas nesses círculos de acordo com a gravidade de seus pecados. Quanto mais profundo o círculo, maiores os castigos e danações.
Fosse real esse inferno dantesco, meu lugar no além-túmulo situar-se-ia no terceiro círculo, local reservado aos glutões. Um cão de três cabeças – Cérbero – estaria na espreita, evitando a minha fuga do tortuoso flagelo: uma chuva pútrida. Nada de desesperador, desde que sirvam por lá um delicioso pudim.
Mas não estarei só. Muito menos na pior situação.
Quase nas profundezas do inferno, encontra-se o penúltimo círculo, contendo dez fossos. Os condenados que se abrigam nessa oitava esfera satânica são duramente castigados. Seus pecados são considerados gravíssimos. Sofrimentos mais intensos somente são impingidos para três traidores que residem junto com Lúcifer, no último círculo do inferno: Judas, Brutus e Cassius.
Dois fossos desse oitavo círculo do inferno merecem atenção. No quinto fosso foram reunidos os vendilhões. No sexto, os hipócritas.
Acaso Dante fosse um poeta contemporâneo, brasileiro da gema, teria realizado “reformas” no inferno, a tal ponto de criar mais um anel. São tantos os vendilhões do patrimônio público pátrio e a mídia corporativa desfila tanta hipocrisia, que o fosso dos vendilhões e o fosso dos hipócritas deveriam ser apresilhados, formando um novo círculo, acolhendo em apartado essa classe de “perdidos”. Seria, digamos assim, o anel dos golpistas. Sim, porque vendilhões e hipócritas são golpistas por natureza. Democracia e lei, para eles, tratam-se apenas de detalhes sem maiores conseqüências, tranqueiras a serem solenemente ignoradas.
Se o poeta florentino não agisse assim, robustecendo o inferno, certamente veríamos estradas sendo obstruídas e agências bancárias “ocupadas” pelo Movimento dos Vendilhões do Brasil e Hipócritas da Mídia Corporativa Sem Teto no Inferno, o MVH.
Estivesse Dante comigo na madrugada de sábado (19JUN2010), acompanhando programa de notícias da mídia corporativa tupiniquim (Jornal da Globo), teria imediatamente reformulado a sua “Divina Comédia”, adotando as reformas acima sugeridas.
Pois noticiou a âncora do telejornal global (Christiane Pelajo) que a grande mídia estava solidária a Guillermo Zuloaga, presidente e acionista majoritário da Globovisión, “único canal independente” da Venezuela, que havia deixado o país para não ser preso. Segundo a Rede Globo, o Judiciário venezuelano decretou a prisão de Zuloaga pelo simples fato daquele Poder ter se transformado em capacho do Executivo, leia-se Hugo Chávez.
O tribunal emitiu o mandado de prisão para Zuloaga e seu filho, mencionando acusações de detenção ilegal de 24 novos veículos utilitários esportivos da Toyota. Os veículos foram apreendidos na casa de Zuloaga em maio de 2009, sendo que a ordem de prisão foi emitida recentemente, o que demonstra que há um devido processo em curso.
Pelo visto, a mídia corporativa local não aceita que o Poder Judiciário daquele país, de forma autônoma, aplique a lei e determine a prisão de Zuloaga, mesmo tenha ele cometido (em tese) um ilícito, porque se trata de um grande empresário das comunicações.
Obviamente que a Globo pode criticar a doutrina “bolivarianista” defendida por Hugo Chávez, desde que o faça assumindo a sua ideologia neoliberal e, na luta política, o lado do balcão que ocupa. Agora, é insustentável resguardar um fora-da-lei, um fugitivo da Justiça venezuelana, somente para tripudiar Chávez. Ou então, que se coloque sistematicamente ao lado daqueles grupos midiáticos que há pouco tempo tentaram derrubar Chávez via golpe militar.
O que falta à grande mídia corporativa brasileira é mais coerência, maior patriotismo e diminuição das cotas de hipocrisia.
Há quase um ano, o presidente de Honduras, Manuel Zelaya, legitimamente eleito nas urnas, foi covardemente deposto. Sem direito de se defender e de ser julgado por um juiz, Zelaya foi retirado da presidência e do seu próprio país. Golpe de Estado! Ruptura da ordem democrática! E com apoio político do Judiciário daquele país que, surpreendentemente, não se interessou em dar azo ao devido processo legal.
Ora, se efetivamente Zelaya, ao realizar referendo popular possibilitando a sua reeleição, descumpriu a Constituição de Honduras, como alegaram os golpistas (e o golpe estava prevista na Constituição?), o então presidente deveria ser submetido a um processo de cassação de mandato (impeachment) ou, por outra banda, de invalidação da consulta popular, mas em hipótese alguma orquestrar-se um “Putsch”!
O que fez a grande mídia corporativa brasileira? Criticou o golpe de Estado? Denunciou a falta de independência do Poder Judiciário de Honduras? Naturalmente, foi solidária com os golpistas. Ao verificar que os EUA não haviam tomado nenhuma medida contrária à destituição de Zelaya, esses senhores da “notícia”, vendilhões de sempre, alinharam-se ao Império (ainda mais diante da circunstância de o Governo brasileiro haver condenado publicamente o golpe). Mas como esperar comportamento contrário da nossa grande mídia empresarial, se ela prestou apoio ao golpe de 64 e ao governo autoritário que se seguiu?
A verdadeira liberdade de imprensa somente vai se construir no Brasil quando o direito à informação imparcial e plural for respeitado.
Se houver inferno…
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Zeus é um fanfarrão, pego a mulher de todo mundo e mais um pouco, coitado do Hercules…
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Anderson:
Quiçá Cérbero (não o da “Divina Comédia”, mas o da mitologia grega) não coma todo pão e mel que lhe jogam, sobrando um pouco para nós dois. Ou então, qual Hércules no cumprimento de sua 12ª e última tarefa, sairemos do Hades com Cérbero nas costas (eu seguro, digamos, a sua parte posterior, e o amigo se responsabiliza por dar conta das três cabeças).
Um dúvida (tempos modernos): para chegar a outra margem do rio Aqueronte é necessário pagar pedágio na barca de Caronte?
Vejamos nobre Charles: a tarefa hercúlea (literalmente) de pegar o “cãozinho” me parece um pouco injusta se dividirmos de tal forma, eu com 3 cabeças e o amigo com a cauda em forma de serpente, mas vamos nós, talvez se a cadela baia (aquela do Mano Lima) nos ajudasse…
Quanto ao pagamento penso que seria melhor pagar (o Caronte era um porco capitalista que matou seu própio irmão para lucrar sozinho com o pagamento pela viagem). Ou quem sabe construir uma via de acesso alternativa custeada por Zeus.
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Caro Anderson:
Olhando a imagem feroz de Cérbero, no topo na coluna, certamente escolhida com ardil por ti, fiquei em dúvida se devo continuar apreciando pudins, figos e pêssegos submersos em creme de leite, que sempre se sucedem a uma suculenta picanha ou paleta de ovelha.
Nobre Charles, pensemos: sendo eu um voraz glutão, ao mesmo tempo temente aos castigos impostos para estes, uso a imagem (da mesma forma que o amigo) para tentar não sucumbir a tantas delícias citadas e outras imaginadas.
PS. Como não podemos contar com Hércules para levar o cão danoso ao Rei Euristeu é melhor que não pequemos.
Anderson Amaral
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