A crise humanitária em Gaza – Coluna do Charles

 

Charles Bakalarczyk

 

Ativistas feridos sendo transportados pelos seus algozes

 

     Uma frota de seis navios, levando pelo menos 750 pessoas, entre elas a britânica Mairead Corrigan Maguire, vencedora do Nobel da Paz de 1976, e a cineasta brasileira Iara Lee, e dez mil toneladas de ajuda, partiu do Chipre na noite desse domingo último (30MAI). Os ativistas humanitários esperavam aportar já no dia seguinte na Faixa de Gaza, território palestino, levando alimentos e remédios para uma população que se encontra em verdadeira carestia por conta do embargo imposto por Israel.

 

     Pois na segunda-feira (31MAI), em águas internacionais, o comboio, que pretendia romper o embargo a que se submete a Faixa de Gaza, foi atacado por militares israelenses antes de atingir o seu destino. A ação resultou em mais de uma dezena de ativistas mortos e aproximadamente trinta feridos. Os israelenses, violando normas internacionais, invadiram o navio principal e, sendo rejeitados pelos ativistas, passaram a matar.

 

     Regularmente navios tentam levar comida e remédios à população de Gaza, chegando por mar, de forma pacífica, mas são atacados impiedosamente pelas tropas israelenses. Para constranger o agressor, foi reunida uma grande comitiva internacional de paz formada por mais de 750 pessoas de vários países. Os organizadores pensaram que Israel não teria a desfaçatez de desafiar o mundo e atacar um agrupamento tão grande de pessoas, composto de variadas nacionalidades. Estavam enganos, infelizmente.

 

     Bueno, agora que Israel atacou, em águas internacionais, o comboio humanitário, seria de se esperar que os EUA, através de Hilary Clinton, exigissem do Conselho de Segurança da ONU duras sanções aos agressores. Se alguém acreditar nisso, é bom ficar esperando sentado.

 

     A “comunidade internacional”, como a mídia corporativa brasileira gosta de denominar os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e a República Popular da China, sendo que os três primeiros são alcunhados de “Ocidente”), tão ciosa com a ameaça que o programa de energia nuclear do Irã representa ao mundo, seria capaz de sancionar exemplarmente o ato criminoso cometido por Israel?

 

     Pesarosamente a resposta é não. Israel figura no cenário internacional como aliado de primeira ordem dos EUA no Oriente Médio. Tanto é que possui tecnologia para a bomba atômica sem qualquer senão norte-americano (as potências nucleares atualmente declaradas são os EUA, a Rússia, o Reino Unido, a França, a República Popular da China, a Índia, o Paquistão e Israel).

 

     Ao quer tudo indica, os EUA irão cinicamente fazer coro ao ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, que culpou os organizadores da frota humanitária pelo “resultado da ação”, dizendo que agiram em “legítima defesa”. Afinal, quem atacou? Quem tinha armas? Quais os propósitos de cada lado no “confronto”?

 

    Não basta a ONU se dizer chocada, como fez seu secretário-geral, Ban Ki-Moon. É preciso ação firme em defesa dos direitos humanos e contundente condenação em desfavor de Israel. Punição nem adianta pedir, o Império não permitiria.

 

     A opinião pública internacional precisa resistir. O mundo não pode se transformar numa “terra sem lei” para os amigos do Tio Sam, sob pena de inviabilizar a elaboração de qualquer acordo mais sólido em termos de segurança mundial.

 

     Sabidamente a atual crise humanitária de Gaza não nasceu do nada. Para quem não recorda das aulas de História proferidas nos bancos escolares, primeiramente os judeus receberam a anuência da ONU para a edificação do Estado de Israel, implementando a exclusão de milhões de palestinos que habitavam a região. Em seguida e contraditoriamente, impediram de forma radical que o mesmo direito, reconhecido igualmente pela ONU, beneficiasse os palestinos, mediante a criação de um Estado Palestino.

 

     Israel sentiu-se no direito de ocupar territórios palestinos via força militar, instalando assentamentos com judeus advindos de outros lugares do mundo. Houve resistência do povo palestino, sendo que o conflito se estende até os nossos dias.

 

     Ocorre que mundo clama por paz. E paz se constrói com diálogo, capacidade de aglutinação, aproximação de diferenças, concessões mútuas negociadas por um tertius compromissado com o diálogo. Tristemente alguns pensam que antagonismos se resolvem com fome, armas, guerras e mais violência. E outros tantos torcem para atearem logo o fogo no circo, pois é lucro certo. Os primeiros apostam na lógica no mais forte. O segundo grupo, na lógica do mais esperto.

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