Metafísico trambiqueiro – Coluna do Arno

Arno Schleder

       Giorgio de Chirico, grande pintor metafísico é também considerado por muitos críticos um dos maiores trambiqueiros das artes plásticas.

    Filho de um engenheiro que odiava a arte, o jovem italiano, nascido na ilha grega de Valos, ficou tão famoso quanto Picasso – ainda nos anos anteriores à primeira guerra mundial.

    Suas obras causavam sensação de angústia indefinível. Mostravam ruas e praças despovoadas onde se erguiam estátuas ou surgiam figuras imóveis de fantoches no cenário de arquiteturas antigas, com arcadas circundando praças desertas ocupadas por manequins sem cabeça, o tempo parecia parado na expectativa de uma tragédia que ia acontecer.

Giorgio de Chirico foi saudado como um gênio cuja pintura “metafísica” continha o mistério das ruínas antigas e das cidades fantasmas. Chirico, explicava: “a metafísica é o outro lado da realidade, a parte além da realidade existente nos seres e objetos. Ela á obtida pela associação incomum das coisas comuns”.

   O caráter onírico de sua pintura assemelhava-se com os propósitos mais visados pelos surrealistas – e estes o saudavam como seu grande precursor. Logo depois o pintor renegou esta fase e passou-se para o academicismo desiludindo seus admiradores.

   Aos 88 anos, o artista milionário – por ganância ou gozação – passou a falsificar suas obras feitas há 60 anos. Além disso, negou a paternidade de suas antigas obras primas. Museus e colecionadores se apavoraram. E para muitos o gênio metafísico não passa de um farsante realista.

   Um dos famosos quadros de Chirico chamado “A Praça da Itália”, foi copiado mais de 400 vezes pela própria mão do mestre – conforme assegura o jornal II Messagero. Esta afirmação nem abalou De Chirico.

   Aos protestos de seus admiradores ele respondia “Um quadro só é bom quando tem as mesmas qualidades técnicas de uma pintura anterior”. Um de seus grandes críticos foi o escritor André Breton e quando numa calçada de Paris, Chirico encontrou Breton, gritou-lhe: “Um dia você ainda vai me pagar pelas injúrias”. O poeta respondeu: “é pra já” – e derrubou o pintor com um murro na cara. De nada adiantou. A partir daí, De Chirico se tornou mais cínico e rebelde. Tornou-se um artista sem sangue nas veias: um imitador do passado, cujas figuras redondas e barrocas à maneira de Rubens não tinham vida. Não perdia entrevista sem declarar que Cèzanne, Van Gogh, Renoir ou Degas eram “umas porcarias”. Que Picasso era um “débil mental que não sabia pintar”. E, acrescentava: “Sou o único que tem coragem de dizer isso”.

   De Chirico criou tanta confusão que ninguém mais o entendeu, somente Loisa Spagnolli, sua biógrafa, que só conseguiu escrever a biografia porque colheu informações em outras fontes. De Chirico, quando procurado por Loisa que lhe pediu dados para sua biografia, disse-lhe. “Vou lhe dar de presente uma grande idéia. Escreva em 150 laudas: De Chirico é gênio, De Chirico é gênio, De Chirico é gênio”. E perguntou: “Não acredita que eu seja um gênio?”

    Estudei com um mestre que era fascinado pela obra desse fantástico pintor, e através de suas aulas passei a entender e admirar a obra e a loucura de Giorgio De Chirico. De Chirico faleceu aos 90 anos em 1978, no seu castelo em Roma.

   A obra de Giorgio de Chirico, apesar de toda sua loucura é digno de toda a nossa admiração, pois, sua obra ainda hoje é observada e estudada por muitos admiradores da pintura. Nos arquivos de minha memória sempre terá um lugar especial para as cores e as formas do mestre trambiqueiro.

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