Em nome da verdade – Coluna do Arno

Do ponto de vista psicológico, o fanatismo não é uma doença mental. Ao contrário do que acontece com os doentes mentais, as fixações e fantasias do fanático não são uma característica constitucional propriamente dita, mas um componente muito mais ambiental e uma causalidade muito mais ligada à educação. A partir de uma série de razões políticas, bastante claras, Hitler e seu partido nazista criaram uma teoria da excepcionalidade do povo germânico. Estava posta a última camada de asfalto sobre a estrada do descontentamento que vinha sendo aberta desde a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial

Pretendendo proteger a castidade da raça ariana, iniciou-se um bárbaro processo de perseguição e massacre das raças e ideologias que “poluíam” o sangue e a moral da “raça de senhores”. O objetivo dos nazistas não era a verdade e sim o poder. Assim o fanático encontrou seu palco e coadjuvou um dos espetáculos mais terríveis da história da humanidade.

O fanatismo se fez presente na humanidade em todas as épocas. Pode aparecer como um severo reformador religioso ou uma simples “macaca de auditório”. No campo político ou religioso, surgem geralmente nas épocas de grande conturbação social, quando os excessos são considerados normais e onde sua palavra pode calar mais fundo na massa. Num podo de estabilidade política, as idéias de Joseph Mcarthy, responsável pela tremenda perseguição aos intelectuais americanos no início da guerra fria, talvez passassem despercebidas ou fossem consideradas apenas excêntricas.

As cruzadas, em nome de Deus e da proteção da cultura cristã, permitiram a eclosão de todo tipo de fanatismo o que muitas vezes resultou na chacina dos “infiéis”. Em uma das cruzadas Pedro, o eremita liderou 40 000 fanáticos que percorreram a Europa, queimando, saqueando e matando sob a promessa de alcançarem a vida eterna ao lado de Cristo.

A Igreja católica, usando sempre o nome de Deus, fez do fanatismo uma de suas armas.  A inquisição foi o seu ponto mais alto eTomás de Torquemada seu principal executor. O fanatismo da Igreja executou milhares de pessoas, em 100 anos a inquisição queimou 250 mil mulheres, todas consideradas bruxas. Bastava a mulher não concordar em manter relações íntimas com um clérigo para que fosse denunciada como bruxa e dessa forma corria o risco de ser queimada na fogueira.

Durante a inquisição homens e mulheres foram também proibidos de pensar, ou ter qualquer tipo de gesto criativo. Ser criativo era pecado, considerado uma grande ofensa a Deus. Pessoas de cérebros brilhantes foram queimadas na fogueira . “Autos-da-fé” assim era denominado esse ato de covardia, diante de multidões que pagavam até ingresso para assistir o suplício, em que a orquestração do espetáculo era comandada por um grupo de assassinos, fantasiados de homens santos que incitavam a multidão.

Em 1865 no sul dos Estados Unidos, devastado pela Guerra Civil entre Norte e Sul, no dia 24 de dezembro, em Pulaski, obscuro centro administrativo do Estado do Tennessee, Cavin Jones, John Lester, Frank MacCord, John Kennedy e James Crowe, se reuniram para fundar uma associação. Nada de política, apenas prolongar a fraternidade das armas. Ai nascia um dos grupos fanáticos mais violentos de nome Ku-Klux-Klan– A palavra grega “koklus’ que significa círculo. Crowe mandou dividi-la em dois: “Ku-Klux” e como a maior parte do grupo eram de origem Escocesa, acrescentaram o “Clã”, portanto, Ku-Klux-Klan. Vestidos como penitentes medievais, portando tochas e agindo à noite como os discípulos das seitas de magia negra da Europa, os membros da terrível Ku-Klux-Klan espalharam o terror nos Estados Unidos investindo contra minorias raciais. Cidadãos pacatos durante o dia, estes fanáticos mascaravam-se à noite, transformando-se em terríveis carrascos, para onde o assassínio, o incêndio e a tortura eram métodos de “limpeza” da sociedade americana. Essa situação é uma faca de dois gumes. “Lutando-se contra o Diabo”, é perfeitamente ético queimar pessoas “em nome de Deus. Muitos desses membros estão impunes até os dias de hoje, inclusive dando entrevista em canais de televisão. Nos Estados Unidos, principalmente os negros, conheceram a violência desses fanáticos.

As “macacas de auditório” também se incluem na categoria dos fanáticos. Jovens que na maioria das vezes executam na sociedade funções de estrita subordinação, indivíduos emocionalmente reprimidos e que encontram grande dificuldade para assumirem um papel social no mundo adulto, transferem todos esses problemas, para uma pessoa de sua geração sobre a qual tenha decido o sucesso — um cantor popular, por exemplo. Este artista passa então a representar todos os ideais dessas jovens que passam a adorar uma espécie de “eu ideal”. O artista desaparece, enquanto objeto corpóreo, transformado na representação de sonhos e projetos de ascensão social. Quando o indivíduo se agarra a uma ideologia, fica implícita a possibilidade de, ao mesmo tempo, odiar tudo o que ela se opõe.

 

Tomás de Torquemada faleceu em 1498 de morte natural, aparentemente indolor.

Tomás de Torquemada faleceu em 1498 de morte natural, aparentemente indolor.

 

Idolatração sem limites.

Idolatração sem limites.

Nazismo: grande exemplo de fanatismo.

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