GRUPO VIVA: Auto-Ajuda ou Ajuda Mútua? – Coluna do Leitor

por Marcello Blaya

Os Alcoólicos Anônimos, iniciados em 1935 por dois bêbados que sozinhos não eram capazes de se controlar, mostraram, nesses 75 anos as possibilidades de recuperação em grupos de ajuda-mútua, equivocadamente chamados de auto-ajuda. Fumantes, obesos, adictos às drogas e muitas outras práticas  encurtadoras do tempo de vida têm usado as práticas do A.A., com sucesso semelhante ao deles.

O nosso tempo de vida vem aumentando e criando um problema: o envelhecimento. Nosso tempo de vida possível é 120 anos. As aposentadorias começam aos 60 anos. O professor universitário deve aposentar-se aos 70. Imaginem um Oscar Niemeyer, hoje com 102 anos, proibido de ensinar aos 70 anos! Nesses 32 anos produziu alguns de seus mais talentosos projetos.

         A observação mostra que podemos ser velhos ou decrépitos. Envelhecer não é doença, como é o  abuso das drogas, dos alimentos, do sedentarismo e, principalmente, do auto-engano. Ser velho é inevitável e bom. Ser decrépito é muito ruim mas é evitável e recuperável. Doenças como Alzheimer, Parkinson, cânceres, acidentes vasculares, traumatismos e outras ocorrências do decrépito, incubadas durante décadas, aparecem depois dos 60.

         Aprende-se no A.A. que é fácil deixar o álcool mas é também muito fácil recomeçar a beber. Duas recomendações ajudam: nunca achar que estou “curado” pois a certeza da “cura” é o atalho para recomeçar; ajudar outro alcoólico é indispensável para ajudar-se.

         Começamos a investigar e cuidar do envelhecimento em março de 2009, num grupo cujo nome seria VVA, vovós/vovôs anônimos. Na reunião de apresentação do programa, com umas duzentas pessoas presentes, alguém sugeriu que VVA tivesse mais uma letra e assim nasceu o VIVA. O Grupo recebe mulheres e homens com 18 anos ou mais que desejam bem envelhecer.

Como nos ensinou Charles Darwin, a evolução produziu, depois de milhões de anos, o corpo que temos. Partindo do unicelular chegamos à maravilha que somos. Muitos ficaram no caminho, como os dinossauros e  segundo a regra darwiniana, as espécies sobreviventes receberam o que de melhor havia nas extintas. O nosso cérebro é tripartido:  um cérebro somático, o alicerce, dos lagartos; um cérebro emocional, as paredes, dos mamíferos; e um cérebro racional, o telhado, humano.

O “progresso” produz, infelizmente, decrépitos vítimas de uma “normalidade” que precisa ser questionada. O propósito  do Grupo Viva é ajudar os participantes já vitimados ou não, sugerindo e incentivando as necessárias mudanças no modo de viver.

Um terço de nosso viver é dormir e sonhar. Com os três cérebros em harmonia, se dorme e sonha, sem problemas. Quem está em conflito consigo mesmo dorme mal, com pesadelos. Os outros dois terços do viver também são acompanhados de sonhos. Como as estrelas “desaparecem” de dia, pelo brilho do sol, os sonhos não são percebidos pelo predomínio do racional. Os pesadelos de dia chamam-se estresses.

Hans Selye nasceu em Viena, 1907 e trabalhou na Univ. de Montreal. Em 1936 publicou o trabalho “Sindrome do Stress”, conceito que enriqueceu a pesquisa científica. O que o pesadelo indica no sono, o estresse mostra de dia. Pessoas com pesadelos e estressadas são vítimas da desarmonia entre os cérebros somático-emocional-racional. Como nos contou Robert L. Stevenson. com o Dr. Jekyll and Mr. Hyde.

O estilo de vida de cada um não é genético, é cultural. Aprendemos com progenitores, família e escolas, o “certo”. Infelizmente o “certo” está em conflito com o corpo darwiniano. Desse choque resultam as mortes antes dos 60 – enfartes, derrames, câncer, acidentes – e depois a decrepitude: Alzheimer, Parkinson, etc.

O “progresso” nos trouxe recursos que incentivam o sedentarismo. O  corpo darwiniano era e é, um coletor-caçador. Caminhava horas cada dia em busca do alimento e corria para caçar e não ser caçado. Vou ao shopping e tenho dezenas de quilos de alimento sem caminhar. Fico plantado na frente da televisão e os pobres músculos inertes sofrem. Se moro no primeiro andar não uso escadas, pois o elevador é “melhor”. O fiel que vai confessar-se recebe o perdão com a penitência. Os “pecados” contra o corpo darwiniano tem como penitência a obesidade e todos os “ataques” antes apontados.

Os danos somáticos, psíquicos e culturais resultantes do “progresso” são difíceis de resgatar se a/o interessada/o não estiver disposta/o a mudar seu estilo de viver. O Grupo Viva pode ajudar.

Nos encontros semanais de 90 minutos o aqui-agora-nós é valorizado como uma forma de evitar o auto-engano. O “normal” é a pessoa falar do passado e do futuro pois os/as parceiros/as que ouvem nada podem ajudar pois não testemunharam o relatado. Ignorar o presente, o aqui-agora-nós é melhor para o auto-engano pois parceiros/as estão vivendo o presente e podem opinar. A pessoa estressada e com pesadelos está em conflito consigo mesmo e a racionalidade costuma ser dominante, desprezando o somático e o emocional, como lhe foi ensinada.  No aqui-agora-nós o presente pode ser observado por quem fala e  pelos demais participantes. Uma forma de ajuda eficaz é dizer à/ao parceira/o o que estamos observando, diferente do que a pessoa está dizendo e mostrar o auto-engano. É doloroso para quem fala e sofrido para quem ouve.

Um encontro eficiente é sofrido e mostra a outra face do “certo”. Fomos ensinados que a dor é má e deve ser eliminada para sermos felizes. No corpo darwiniano a dor é o beneficio que nos alerta para o mau uso que estamos fazendo dele. Dor no peito, angina pectoris, é um aviso que ignorado nos leva ao enfarte e à morte. As oscilações euforia-melancolia são avisos que ignorados nos levam ao psiquiatra. Esse poderá nos medicar e tornar-nos adictos aos medicamentos, ao invés de ajudar-nos a mudar o modo de viver. Muitos desistem quando sentem que a verdade dói. O preço: em sofrer, caro; em dinheiro, grátis.

Hoje há duas cidades com GrupoViva (GV): GV-POA, org.Marcello Blaya e GV-SLG, org.Djanira Silva Moura. E planejam-se outros três: GV-S.PAULO, org. Lóide Figuereido, GV-S.ROSA, org. Sandra Judacheski e GV-BELÉM NOVO, org. Marcello Blaya e Marta Ventura,

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