Assim como os judeus fazem com o Tanakh, os cristãos com a Bíblia Sagrada e os mulçumanos com o Alcorão, os adeptos da democracia deveriam todas as noites, antes de dormir, ler algumas linhas da obra “Futuro da democracia – uma defesa das regras do jogo”, de Norberto Bobbio (Editora Paz e Terra, 1986)[1]. O professor universitário, escritor e político Norberto Bobbio (Turim, Itália, 1909) foi um pensador complexo, que buscou conexões entre a tradição política liberal e a tradição socialista, entre o ideário de Benedetto Croce e as reflexões de Antonio Gramsci. Como se vê, a tarefa a que Bobbio se propôs não era pouca coisa. Seu pensamento se construía, simultaneamente, como crítica e síntese[2] de duas formas opostas de “ler” e atuar sobre (e no) poder, ainda mais se considerarmos que muito de sua produção intelectual se deu no curso da “guerra fria”, momento de bipolarização ideológica, situação em que se era “grego” ou “troiano” – eventuais posições intermediárias ou dissociadas não encontravam eco[3].
Pois Bobbio, na obra acima mencionada, defende que a democracia deveria ser, para o cidadão, um costume, de tal sorte que sem ela algo de essencial lhe faltasse. Conforme o entendimento clássico, um costume social se corporifica numa norma de natureza moral, ou seja, numa regra de conduta que exprime um valor. O melhor guardião da democracia é cidadão que a toma como valor a ser preservado com unhas e dentes.
Certamente o cidadão somente lutará por um determinado valor se isso fizer algum sentido para si. Bobbio, ao definir o que seja democracia, já dá um belo motivo para o cidadão por ela se abalar: sistema de regras que estabelece quem está autorizado a tomar decisões que vinculam a coletividade e com quais procedimentos. A decisão, embora tomada por um, alguns ou por muitos indivíduos, tem natureza coletiva na medida em que foi formulada segundo regras disciplinadoras do procedimento (regras essas aprovadas previamente pela coletividade – diretamente ou por meio de representantes eleitos).
Assim, a democracia é o avesso da autocracia (um desvalor, sob a ótica democrática). Na autocracia, as deliberações de interesse coletivo são tomadas por um ou alguns indivíduos que agem sem anuência da coletividade, impondo suas decisões pela força e pelo medo.
Uma segunda situação levantada por Bobbio que se presta a mobilizar o cidadão em defesa da democracia é fato de que esse sistema de formação da vontade política permite a divergência e, via de conseqüência o pluralismo. Não que na autocracia inexista divergência, mas ela é resolvida com a eliminação – muitas vezes no sentido literal – do “fator” de discórdia.
Claro que uma decisão coletiva exige que a divergência seja superada, ainda mais quando os pontos de vista em confronto são antitéticos, tendem a se excluir. A velha máxima de que os burros têm de puxar para o mesmo lado, sob pena de não movimentar a carroça.
Pois na democracia, a divergência é resolvida pela aplicação da “regra da maioria”, leciona Bobbio. Diante de duas ou mais propostas em discussão, deve prevalecer aquela que for aceita pela maioria do corpo deliberativo. Essa forma de descarte da divergência adotada pela democracia também se constitui num valor em si, tendente a sensibilizar o cidadão pela causa democrática.
Bobbio lista mais dois ideais da democracia, a tolerância e a não-violência. A tolerância surgiu como contraponto ao horror das guerras religiosas, como forma de evitá-las. Funciona como um antídoto ao fanatismo religioso.
A não-violência, por sua vez, tem a ver como a forma em que como os cidadãos, na democracia, livram-se de seus governantes, quando não satisfeitos com eles. Não há necessidade de banho de sangue, basta não repetir o voto nos indesejados (há outras formas, conforme o caso: impedimento – cassar o mandato, suspensão de direitos políticos, etc.).
Outro ideal caro à democracia, na perspectiva de Bobbio, diz respeito à renovação gradual da sociedade por conta do livre debate de idéias e a modificação de mentalidades. Com efeito, em sociedades autoritárias, fechadas, as idéias e valores sociais não se modificam, há uma reprodução contínua, como se o tempo histórico estivesse congelado. Qualquer tentativa de avanço gera desconfiança e é duramente reprimida pelos detentores do poder político e econômico. O debate de idéias é travado, os governantes agem em represália a quem abrir dissidência[4].
O ideal da irmandade também é mencionado por Bobbio. Se a história humana nada mais é do que um matadouro de gente (Hegel), a democracia é a esperança concreta de que cada cidadão possa reconhecer no outro a própria humanidade (e o destino comum dos humanos), um “irmão” que não deve ser abatido (ou explorado/manipulado), mesmo diante da disputa pelo poder ou da luta pela sobrevivência (par alguns não se trata mais de sobreviver, mas de acumular riquezas em quantia tal que sequer poderá dela usufruir em vida).
Esse conjunto de ideais é suficiente (ou deveria sê-lo), conforme escreveu Bobbio, para encorajar o cidadão na defesa indefectível do sistema democrático, mesmo quando deparado com a “democracia real”, que desnuda as promessa não cumpridas pela praxis democrática, entre os quais a revanche dos interesses, a manutenção do poder invisível, a persistência das oligarquias, a limitação de espaço democrático e o cidadão não educado para a cidadania.
Não há como nesse modesto escrito referir, mesmo que minimamente, todas essas promessas não resgatadas pelos governos democráticos e pela sociedade civil. Mas pelo menos uma delas merece destaque: a limitação de espaço para o exercício da democracia.
Bobbio denuncia que a democracia andou a passos largos até consolidar o sufrágio universal e depois estancou. Inicialmente votavam (e eram votados) somente proprietários do sexo masculino (os “machos burgueses”), depois o voto foi estendido aos trabalhadores, às mulheres, aos negros, às minorias, etc.
O intelectual italiano chama a atenção para o fato de que a democracia política tem dificuldades em se transformar em democracia social. O sufrágio universal conquistado tem a ver com consolidação da democracia política (eleição de governantes ou escolha de políticas públicas a serem desenvolvidas pelo Estado), mais isso é pouco. Não basta para a democracia saber “quantos votam” (já que, de certa forma, todos têm direito a votar), mas onde se vota, ou seja, quais os espaços em que o cidadão pode exercer esse direito.
Note-se que Bobbio alarga o conceito tradicional de cidadão. O termo cidadão não é uma veste que a pessoa usa exclusivamente nas suas relações com a “sociedade política” (o Estado). O trabalhador assalariado, o sindicalizado, o estudante, o pai/mãe de família etc. também é cidadão quando atuando naquele espaço em que exerce a função “privada” (de trabalhador, de estudante, de pai etc).
Bobbio propõe uma espécie de “democraciômetro” (desculpem o neologismo forçado). Sustenta o pensador italiano que para medir o avanço da democracia não é suficiente verificar se a quantidade de votantes foi ampliada, mas se o número de locais em que o cidadão participa da construção das decisões que dizem respeito à coletividade foi ampliado (família, escola, clube social, fábrica, sindicato, etc.).
Claro que se olharmos à nossa volta, será fácil concordar com Bobbio: a promessa de ampliação contínua do espaço para o exercício da democracia (social) está paralisado ou, no mínimo, funciona a passos lentos.
O desafio para os democratas reside exatamente na luta cotidiana pela ampliação dos espaços para o exercício da democracia, mesmo que para isso tenham de enfrentar dura resistência daqueles que não aceitam partilhar a tomada de decisões que dizem respeito à coletividade (vez que isso contraria interesses particulares de toda ordem, principalmente econômicos).
[1] Não como dogma ou cartilha, mas material para a reflexão.
[2] Bobbio se proclamava “liberal-socialista”.
[3] Esse pensamento ainda é recorrente em muitas críticas à “crise das ideologias”. Segundo tais críticos ou se está alinhado com o socialismo real ou com liberalismo, qualquer visão que não se enquadre nesse “preconceito” é taxada como “falta de ideologia” ou “ideologia confusa”. Esquecem esses senhores que espectro político-ideológico é bem mais complexo e não pode ser definido na proposição “ou se é A ou se é Z”, já que entre o A e o Z passa todo um alfabeto de possibilidades.
[4] Não somente os governantes. O poder econômico e o poder midiático (grande mídia empresarial) também agem dessa forma inescrupulosa.
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Partino do pressuposto de que eu seja militar:
… Por acaso o gordo soldo que eu recebo é aquele há mais de anos est’a defasado? Em outros órgãos públicos, cargos correlatos aos que eu desempenho ganham, no mínimo, cinco vezes mais… Ah, esqueci! Militar e seus familiares têm que passar fome!! Ainda bem que não há retaliação… Ufa, vivemos uma democracia!! Mesmo que se quebre sigilo fiscal dos outros na mesma quantidade em que se bebe água… Paciência… Quanto aos novos carros de combate adquiridos pela Força Terrestre, estava mais do que na hora de realizar a troca da família de blindados brasileira, pois ainda estamos utilizandos carros da 2a. Grande Guerra e acredite, não foi a visão empreendedora e patriota do GRANDE LÍDER que promoveu a aquisição dos mesmos que a meu ver, fica devendo e muito a quem pleiteia ocupar uma cadeira permanente no CS… Pois, como bem sabemos, o Chile já possui esses carros quando da aquisição dos 1A1 aqui no Brasil e o que estamos recebendo aqui… Lá, eles já estão trocando pelo Leopard 2… Baita negócio que o seu ESTADISTA fez… Vamos nos preparar para não ficarmos jorrando ilações a revelia!!!
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Excelente texto. Ninguém como Bobbio para servir de base a uma crônica que aborda os cuidados que devemos ter para manter e fazer avançar a democracia, essa jovem de pouco mais de 25 anos(isso mesmo, a nossa democracia é muito tenra!).
Hoje, como vivemos a normalidade democrática (muito embora com os limites abordados pelo cronista) há um natural “relax”, isso faz com que esqueçamos os tempos de dissabores, censuras, prisões ilegais, torturas, mortes, desaparecimentos de corpos e abusos que representaram o período de arbítrio do governo militar.
E que não se busque justificar aqueles tempos sombrios com a desculpa segundo a qual existem ditaduras de esquerda pelo mundo afora (como se uma ditadura de esquerda legitimasse outra de esquerda).
Também é inaceitável justificar o golpe de 64 por conta duma suposta luta armada para implementar no Brasil a “ditadura do proletariado”. Isso é inverídico, sem suporte no mundo fático. O golpe foi uma ação autônoma, planejada, com intuito de derrubar Jango (que não era comunista), não um movimento defensivo.
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Engraçado que o senhor Fulano de Tal não reclama em nenhum momento do gordo soldo que ele recebe desse mesmo governo. E também não reclama dos novos carros de combate que recentemente foram adquiridos da Alemanha.
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Dossiê é o Brasil nunca Mais e o livro produzido pela “Comissão da Verdade” em que são apontados os supostos torturadores, locais em que trabalharam, postos de chefia que, porventura, ocuparam, etc. O projeto Orvil faz apenas um registro histórico do que ocorreu na História Brasileira no período de 1935 ( eles estão por aí, há bem mais tempo que alguns imaginam)a 1985. Sem revanchismos embutidos ao longo da obra. Dossiê é um documento inquisidor, como os que vem sendo feito ultimamente por uma turminha de aloprados… Uma brincadeirinha apenas… Coisa de criança… Algo para não ser levado a sério… Agora, um registro histórico e detalhado, com transcrição de alguns documentos com calssificação sigilosa (sonho da galera que quer se amparar no Bolsa-Ditadura), é balela… Tem que ser desconsiderado… Cadê os revisionistas? Os que buscam a verdade de todas as nuances? Esse não vale, não é?
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… e de onde que vem o dinheiro da comissão da verdade?
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Charles, (estava com saudades)
E parabéns pelo post.
adorei a leitura.
abçs.
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LIVRO NEGRO DO TERRORISMO…
Ei, isso não é um dossiê?
Nesse livro também foi gasto dinheiro público?
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… Já dizia Fidel Castro: “Esse siatema não é bom, nem para os cubanos!”
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
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Leiam o “LIVRO NEGRO DO TERRORISMO” (Projeto Orvil) e conheça, verdadeiramente, seus candidatos… É dever de todo cidadão e democrata!!! DE VERDADE!!!
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Lembrem-se que o GRANDE LÍDER deste país já afirmou que na Venezuela se vive uma democracia… O ESTADISTA BOLIVARIANO da Venezuela atingiu o poder por meios democráticos (eleições) e olha no que deu…
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…trezentos ou quatrocentos foi um preço muito pequeno para a manutenção da democracia nesnte país!! Acordem!! A “Revolução Branca” já teve seu início!!
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Engraçado, perpetuação de poder por aqueles que, em 64, pegaram em armas para implantar aqui, neste país, uma DITADURA DO PROLETARIADO, PODE!!! Achincalhar o Judiciário em período pré-eleitoral e eleitoral, PODE!!!! Realizar dossiê aloprado, PODE!! Quebrar sigilo fiscal de caseiro, de presidenciáveis e familiares, PODE!! Isso é caminhar para a democracia? Postei o endereço no intuitode àqueles que tenham interesse em conhecer a vida daqueles que estão liderando as pesquisas e fizeram questão de maquiar sua “trajetória política”, mas isso… NÃO PODE!!! É anti-democrático!! É canalhice e golpismo!! É isso aí, o “controle social” da mídia chegou mais ceda em nossa cidade do que nas outras… Ainda bem que aqui não dependemos do papel jornal argentino, senão… Estou aqui na intençõa de despertar os desavisados, pois pergunte àqueles, cidadãos de bem, que viveram o período se era vivido essa onda de violência que assola a atual sociedade? E se acham que a medida tomada contra àqueles que decidiram insurgir-se contra o sistema, é o que sempre se diz nas rodas de conversa sobre o assunto: Entrou na chuva, é pra se molhar… E afirmo,
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Seu Fulano de Tal:
Fui ler a tua “recomendação diária” para democratas.
Acho que cometi um enganho quanto ao link. Porque o que encontrei foi um MANUAL GERAL DE COMO JUSTIFICAR UM GOLPE DE ESTADO COM APOIO DA CIA”.
Como “verdadeiros democratas” não são afeitos a golpes, tomei um baita susto, tchê.
Buenas, vou seguir aqui apoiando a tal democracia, porque nela pelo menos tenho direito de opinar.
Uma pegunta ao Fulano de Tal: numa ditadura militar o Guia São Luiz iria “funcionar” ou o redator e seus auxiliares já estariam preso?
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A democracia requer eterna vigilância mesmo, como bem preconiza o colunista Charles.
Estamos longe duma democracia social, mas é um processo. Vamos chegar lá.
Não entendi porque o Sr. Fulano de Tal, num texto sobre democracia, põe um atalho para divulgar um governo autoritário como o de 64. E ainda fala em enderaçamento aos “verdadeiros democratas”…
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Aos verdadeiros democratas,
- Deveriam ler diariamente este link:
http://www.ternuma.com.br/orvildownload090.htm
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