Ricardo Bernardo
No dia 20 de setembro alguns relembram o que classificam “Revolução” Farroupilha, ao enaltecerem a bravura e a valentia de poucos rio-grandenses do século XIX. Tal acontecimento, considerado o mais importante do Estado, passou de uma simples reivindicação burguesa para um ícone da memória coletiva dos habitantes do Rio Grande do Sul. Porém ele é cercado de certos equívocos, que quase se tornam verdades absolutas.
A figura e o perfil do gaúcho surgiram de um processo completamente diferente daquele defendido pelos Farrapos. O gentílico foi utilizado durante muito tempo para designar os trabalhadores envolvidos diretamente com a lida campeira, que vagavam pelo pampa de estância em estância, na busca de serviços temporários. Como eram nômades, deslocavam-se no lombo do cavalo, dormiam debaixo do pala nas gélidas noites de inverno, se aqueciam com o chimarrão e seu maior divertimento consistia em jogar um carteado ou assar uma carne no fogo de chão.
A cultura gaúcha é basicamente oriunda da vida desses homens que viviam sem luxo algum, perambulando pela campanha. Até as músicas enfocam em sua ampla maioria assuntos relacionados a essa temática. Somente no final do século XIX que o termo começou a ser empregado como adjetivo pátrio dos habitantes do Rio Grande do Sul. Os Farroupilhas, por serem exclusivamente nobres, não se consideravam gaúchos, mas sim rio-grandenses.
A Guerra dos Farrapos, idealizada somente pela alta sociedade da época, tinha como finalidade reduzir os impostos do charque local, mais caro que no vizinho Uruguai. A liberdade proposta era unicamente de comércio, baseada nos moldes do liberalismo econômico, sendo mais lucrativo os próprios latifundiários controlarem e administrarem seus negócios, sem pagarem tributos ao Império. Movido por esse ideal, mascarado com lemas de liberdade, igualdade e humanidade, eles fundaram a República Rio-Grandense.
Além do mais, não se pode considerar o movimento como uma Revolução, pois historicamente essa denominação é utilizada para se referir a uma mudança drástica e duradoura. De fato, isso não aconteceu no Rio Grande do Sul, onde as mudanças foram apenas temporárias. Quando a província aceitou a paz proposta pelo Império, em 1845, tudo voltou a ser como antes e a Revolução deixou de existir.
O legado da Guerra dos Farrapos também é preconceituoso. Os escravos foram utilizados como massa de manobra e enganados em troca da tão sonhada liberdade, mesmo constituindo um importante pelotão de infantaria, conhecido por lanceiros negros. Para engajá-los à luta, os líderes Farroupilhas prometeram abolir a escravidão caso eles combatessem com bravura, algo que não passou de pura propaganda enganosa.
Como a liberdade para o referido grupo não estava na idéia dos Farrapos, porque essa medida resultaria em grandes prejuízos financeiros, eles temiam que os escravos pudessem se rebelar, o que seria perigoso às elites. Coube então a David Canabarro organizar uma emboscada para os lanceiros negros, fazendo com que os mesmos caíssem nas mãos do Exército Imperial. O episódio ficou conhecido como a traição de Porongos, por ter acontecido no cerro de mesmo nome, e resultou no completo massacre desses homens.
Os protagonistas do conflito não passavam de interesseiros que visavam apenas consolidar seus negócios. É lamentável que até hoje muitos os cultuem como heróis. Dentre os envolvidos, o único que merece respeito é o General Neto, que acreditou até o fim que as ideias Farroupilhas pudessem se tornar realidade para todos. Descontente com o acordo de paz, acabou por exilar-se no Uruguai.
Os gaúchos não deveriam se deter tanto na Guerra dos Farrapos, mas sim valorizar mais outros aspectos de sua origem e história. O Movimento Tradicionalista Gaúcho é fanático por um acontecimento que não contribuiu para a formação cultural do Estado, além de ser compatível com algumas atitudes arbitrárias cometidas na época, dentre as quais, o episódio de Porongos. Mas esse fato é compreensível, tendo em vista que seus membros são do mesmo grupo social daqueles que declararam guerra ao Império, em 1835.
É paradoxal ver que as pessoas cultuam tanto um conflito fracassado, do qual a província não obteve a separação do resto do Brasil, a escravidão não foi abolida e a igualdade não existiu. Literalmente, como diz no hino Rio-Grandense, a causa Farroupilha não foi mais do que “ímpia e injusta”; guerra que não trouxe nenhum benefício para o Rio Grande do Sul.
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Ahh, e Sr. Fulano de Tal, tem-se uma discussão a respeito da versão da historicidade contada, pelos “ditadores da história”, e a legitimidade dos fatos; o Manifesto Nheçuano, procura, através de novas interpretações, restabelecer novos horizontes, ou apenas revisar “conhecimentos” já estabelecidos pela História.
>>>> http://www.nhecuanos.com.br/mani.htm
A história esta repleta de momentos imperialistas, e por muitas vezes colonialistas, onde os “invasores” desprezam, e até agregam novos valores, à cultura autóctone regente. As Companhias Espanholas, tal qual a Companhia de Jesus, na primeira fase reducional, não pode deixar de ser classificada como mais um fator imperialista, e de mudança cultural, onde a representatividade do cacique-pajé, em questão a figura de Nheçu, deixa de ter a importância de status quo. A “revolta nheçuana”, tanto quanto a Guerra Guaranítica, mais de um século depois, justificam-se tanto pela defesa de seus territórios, quanto pela resistência à aculturação branca.
Considera-se então, Nheçu, como sendo um herói, em defesa do seu povo??? Ora, em qualquer contexto histórico, evidencia-se, a bipolaridade estrutural, a disputa entre o bem e o mal, o certo e o errado; Então, dentro desta estrutura convergente, exalta-se, merecidamente, depois de séculos, a legitimidade do confronto, considerando-se, a revolta liderada por Nheçu, como, quem sabe, e porque não, um precursor de outro herói muito exaltado pelo imaginário sul-riograndense, Sepé Tiaraju. E aos poucos dá-se nomes aos bois.
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vê-se em comentários no link http://guiasaoluiz.net/2010/09/revolucao-farroupilha-disputa-entre-oligarquias-coluna-do-charles/
muito pertinente à discussão:
“Nota-se que o “gauchismo”, ou a ideologia do herói farrapo, impregnado na mentalidade sulina no pós-revolução, não passa de mera “auto-afirmação” diante de uma situação de desgaste, flagelo, e desestruturação bélica total, a qual colidiu com a assinatura do Tratado do Poncho Verde, botando fim a um conflito oligárquico de interesses puramente econômicos.
Ou seja, o desfecho desta “revolução”, não deu-se, como canta o imaginário gaúcho moderno, em virtude da superioridade e da força aguerrida dos farrapos que lutavam por uma causa, que poucos conheciam, mas sim, em virtude de uma mudança de interesses da oligarquia cafeeira do centro-oeste. E de pouco em pouco eivasse a imagem do Mito do Gaúcho.”
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Muito instrutivo o seu texto. Ainda hoje (20.09) conversava com meu sogro que é historiador e muito se deteve ao estudo deste movimento. Esta é a história “nua e crua” que poucos conhecem e que não ensinam nas escolas! Conhecemos ela muito romanceada onde idolatra-se a figura e os ideiais gauchos… puro engodo, como foi dito o único interesse era mercantilista. Parabéns!
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Muito bem Ricardo!! Gostei muito do seu texto!! Isso tudo é verdade e infelizmente vimos que os interesses financeiros e pessoais de certos “grupos” isolados da elite da época estavam em primeiro lugar…Também concordo em relação ao termo “Gaúcho”, li de um historiador que este termo até os anos 40, era considerado ofença e significava uma pessoa largado no mundo, andarilho, sem rumo, etc.
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Será que terá que ser feito também o outro lado das Guerras Guaraníticas?
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Por isso que muito mais que gaúcho … SOU MISSIONEIRO!
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Excelentes constatações James!
Realmente, cada povo procura através de simbolismos se auto-afirmar como identidade, mesmo que as heranças tenham diferentes origens, sejam elas sociais ou cronológicas.
E quanto a territorialidade, nem se fala. Qual gaúcho que não estufa o peito para dizer sua origem ou que não se orgulha do RS? Todos, em pelo menos um aspecto, possuem algum sentimento de pertencimento ao Estado, mesmo aqueles que não simpatizam tanto com a “Revolução” Farroupilha e suas causas. Heheh
Abraço!
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Belo texto Ricardo, trouxe informações das quais eu não tinha conhecimento.
Só acredito que a “Revolução Farroupilha” está viva na memória do gaúcho pelo seu simbolismo, não pelas suas repercussões políticas ou institucionais. O que faz com que até hoje ela seja lembrada, é a existência de uma forte característica do povo rio-grandense: o gauchismo.
Se de outra forma fosse – mesmo que na História não exista “se”- e existisse um levante de escravos, uma revolta de peões, uma marcha de prendas cansadas de tricotar em casa. Mesmo assim, falaríamos disso, pois é inerente ao povo gaúcho. Ainda bem que somos assim! Podemos estar em outros estados, temos a consciência das desigualdades sociais que nos assolam, mas em 99% das vezes não baixamos a voz quando nos perguntam de onde viemos.
Existem países em que esta “gabolice” é chamada de Territorialidade, e as políticas públicas sabem o imenso potencial que ela tem.
Grande Abraço!
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