Toca Raul! – Coluna do Ricardo

Ricardo Bernardo

Raul Seixas foi um dos maiores ícones do rock nacional. Após mais de vinte anos de falecimento, seu trabalho continua fazendo sucesso até mesmo com as novas gerações, que nem chegaram a conhecê-lo. De subversivo, passou a ser sinônimo de cultura e inteligência para aqueles que o escutam.

Nas composições, Raul protestava contra os acontecimentos de seu tempo. Por seguir essa linha, teve alguns problemas com a censura no período da ditadura militar, quando desagradou quem estava no poder ao propor uma “Sociedade alternativa”. Mesmo assim, nas canções seguintes, deixou nas entrelinhas vários questionamentos que dificilmente eram percebidos.

Como é impossível falar da obra inteira do artista, escolhi algumas produções de destaque. A música “Sapato 36” criticava a situação política do Brasil dos anos 70, assim como “SOS”, que por sua vez, tinha uma temática relacionada à sociedade da época. Segundo ela, somente com uma mudança de planeta para resolver os problemas que existiam no país, além de seu título dispensar maiores explicações.

Ao falar sobre o repertório de Raul Seixas, não se pode esquecer do clássico “Cowboy fora da lei”, onde ficavam expostos os interesses daqueles postulantes aos cargos públicos. Ele não queria ser prefeito, pois era capaz de mentir sozinho, criticando a maioria de nossos representantes, que até hoje pensam somente em seus próprios interesses. Engraçado que a coligação vencedora da eleição municipal de 2004 utilizou uma paródia dessa música naquela campanha. Provavelmente não conhecia o verdadeiro significado da original.

Outra preciosidade é “Anarkilopólis”, que retrata uma cidade do Velho Oeste, dominada por facções pouco amistosas. Tal fato resultou até no banimento do xerife, cargo mais importante da região, detentor do poder executivo, além de força policial. Sempre que a escuto, lembro imediatamente de São Luiz Gonzaga, seja devido a seu título ou pela história nela contida, muito semelhante aos acontecimentos locais dos últimos anos.

Mais um clássico que pode perfeitamente ser trilha sonora do momento é “Anos 80”. Apesar de lançado na década perdida, para representar as mudanças que aconteciam no Brasil, continua em evidência porque cada vez mais se varre “lixo pra debaixo do tapete que é supostamente persa pra alegria do ladrão”.

Porém às vezes Raul protestava explicitamente. Em “Mamãe eu não queria”, abordou seu desagrado contra determinadas obrigações, enfatizando que muitos faziam (e ainda fazem) certas coisas contra a própria vontade, pois “se fosse tão bom assim não seria imposição”. O músico ainda tinha o seu lado escolástico, exibido na composição “Eu nasci há dez mil anos atrás”, onde vários fatos históricos e religiosos foram citados concomitantemente.

Por mais que tenha despontado há mais de três décadas, Raul Seixas permanece atual. Suas letras representam o que existe na sociedade brasileira do presente, com arbitrariedades, interesses políticos, falcatruas, entre outros fatos. Polêmicas à parte, muitos “Carpinteiros do universo” se identificam com as idéias dele, que ainda continuam vivas.

Popularity: 2% [?]

Divulgue!