O nú artístico – Coluna do Arno

      Eva não usava roupas, como se tem memória. Mesmo porque no Paraíso não havia pecado. Depois sim, é que a coisa degringolou completamente, com a chegada intempestiva do jovem Adão.

       Como se sabe, desde épocas remotas, os artistas primitivos já desenhavam nus – como podemos ver na famosa gruta de Altamira, na Espanha – sendo esta, reconhecidamente, a primeira manifestação artística que chegou ao nosso conhecimento, enaltecendo a beleza feminina e suas curvas tão envolventes e fascinantes.

          Com a evolução da civilização, a realização do nu foi adquirindo proporções exatas e harmônicas, até alcançar – principalmente no período do classicismo Grego – um equilíbrio perfeito das partes que compõem a figura humana. Atingiu-se assim, por meio da arte, a planificação geral das leis anatômicas.

           Segundo os cânones gregos, a altura do corpo feminino, em proporção, é equivalente a sete vezes a altura da cabeça; a distância entre os seios e o umbigo, como também entre o umbigo e a bifurcação das pernas, deve ser igual a altura de uma cabeça e assim por diante.

        Efetivamente, a arte figurativa se acha em continua evolução. Entretanto, aqueles que pretendem dedicar-se ao estudo sério do nu, não podem deixar de conhecer e assimilar os esquemas clássicos fundamentais.

       Para que se possa obter resultados satisfatórios na realização dos nus, é necessário acima de tudo dedicarmos com assiduidade ao desenho, reproduzindo ao natural, pessoas que concordem posar.

        Repito que se deve esboçar e desenhar o máximo que se puder, sem ceder ao desejo de começar a lidar com as cores. Lembre-se que pintar uma figura não é mais difícil do que executar uma paisagem, ou compor uma natureza-morta, o que poderá ser comprovado no decurso do estudo da pintura.

        Entanto, não se pode esquecer que o desenho continua sendo a base legítima da arte. Por isso, é necessário que se desenhe diariamente

         Ao pintar o nu, disponha o modelo de maneira que a iluminação venha da esquerda, e um pouco atrás de suas próprias costas, afim de que a sombra da sua mão não atrapalhe a execução do trabalho.

         Ao efetuar várias sessões com o modelo tome cuidado para que o modelo assuma sempre a mesma pose. E não fique próximo demais da figura, mantenha-se a uma distância regular, de onde possa vê-la completamente em seu conjunto.

         Pintar o nu exige muita energia tanto do pintor quanto do modelo, porém um nu pintado com o envolvimento da alma faz com que pintor e modelo sejam cúmplices de um momento único que ambos carregarão para sempre.

       Só me senti um pintor quando pintei o primeiro nu artístico, e aqui declaro sem medo de pecar: Pintar o nu foi e sempre será a consagração do pintor.

Trabalho com modelo vivo no Ateliêr Los Libre por Arno Scheleder

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