Português na Brasa (Antropofagia) – Coluna do Arno

     Arno Schleder

      Carne humana era um prato mais que importante no cardápio dos índios brasileiros, adeptos do canibalismo.

      Na cultura dos povos nativos do Brasil esse hábito envolvia uma cerimônia que evocava o sobrenatural. “Acreditavam que o indivíduo ganhava a força pela assimilação de outros (humanos) poderosos e perigosos, fossem eles guerreiros inimigos ou parentes mortos”, afirma o historiador Jhon Monteiro da UNICAMP.

     Os inimigos mais poderosos que essas populações tinham eram os portugueses. Os Lusos se tornaram o prato favorito da taba, o que salvou o aventureiro Hans Staden de arder no moquém (braseiro). Por ser alemão, Staden foi poupado pelos Tupinambás que o capturaram em Ubatuba (litoral de São Paulo), em 1549. Prisioneiro dos índios presenciou rituais antropofágicos.

     Parece curioso e irônico, mas Hans Staden foi poupado por ser alemão, por não ser considerado um grande guerreiro. Na Alemanha, 390 anos depois, os nazistas de Adolf Hitler também colocaram seus inimigos no forno, mas não para comê-los e sim para exterminá-los, pois não viam nenhuma qualidade nessas pessoas. E dessa forma médicos, engenheiros, professores botânicos, cantores, poetas, pintores e tantos outros artistas e pessoas altamente produtivas foram exterminadas.

     Além dos Tupinambás, os Caetés, que habitavam o litoral do nordeste também eram chegados ao “churrasquinho de portuga”. Conta-se que em 16 de junho de 1556, souberam do naufrágio de uma embarcação portuguesa em mares brasileiros e ficaram na praia aguardando os pratos de seu jantar. Assim que pisaram na areia, os noventa tripulantes e o primeiro bispo do Brasil D. Pedro Fernandez Sardinha, foram capturados e devorados pelos índios. A história se espalhou e ficou registrada em cartas de Jesuítas da época. No entanto, de acordo com John Monteiro, não há como afirmar com certeza a veracidade do ocorrido, já que os relatos são todos marcados com a intenção de condenar os Caetés e torná-los sujeitos à escravização. Sabe-se que foram exterminados em apenas cinco anos.  

     Não se sabe até hoje quantos grupos indígenas praticavam a antropofagia. O hábito durou até o século XVII, quando a catequização acabou com ele nos territórios controlados pelos colonizadores.  Porém, a “lógica antropofágica” permaneceu forte, inclusive na forma pela qual os índios assimilaram os rituais católicos, que incluem a ingestão do “corpo e do sangue de Cristo”. Hoje só os Ianomâmis conservam o hábito de comer cinzas de cadáver, como forma de homenagear um amigo morto.

Mal passado ou bem passado?

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