Sobre a criança – Coluna do leitor/Rafael Machado

Início de toda a andança

Por sobre o plano terreno;

Vida que em traços pequenos

Ganha adornos de esperança!

Hoje te canto – criança

Como a muito gostaria;

Feito o sol acorda o dia

E o dia acorda a querência,

Tua radiante inocência

Acorda minha poesia.

Teu riso despreocupado

Que boca a fora se expande

É picada em mato grande

Pra os que andam calejados!

Trilho todo iluminado

Da mais divina bonança;

E não sei como – criança

- Isenta de qualquer pena -

Tu possas mesmo pequena

Guardar tamanha confiança!

No caminho vais notar

- Se não notar ao nascer -

Que o que deves saber

A vida vai ensinar;

Por isso mesmo – apressar

O tempo – nunca convém;

Se um dia vai, um vem!

Assim é e deve ser

E jamais é bom querer

Um tempo que não se tem.

Não te canto simplesmente

Para por ti ser lembrado,

Mas porque fui no passado

O que tu és no presente;

E sabendo do que sentes

Posso com mais propriedade,

Dizer que a humanidade

- Que anda, mas não avança!

Devia era ser criança

Ao longo da eternidade.

Quem sabe se fosse assim

- Do que é hoje o avesso -

Além de um novo começo

Distinto seria o fim;

Mais puro seria um sim,

Mais firme seria um não!

E o humano – coração

Num raio de sensatez,

Aprenderia de vez

A Unir razão e emoção.

Sempre que olho pra ti

- Entretida em teu mundinho -

Chego a perguntar baixinho:

- Porque foi que eu cresci?

Pois tu carregas em si

- Encantadora figura -

Tudo que uma criatura

Busca talvez por vaidade,

Sem saber que na verdade

Sempre teve o que procura!

Assim mesmo não me iludo

Com este mundo onde vivo,

Afinal tenho motivos

Que por serem meus, não mudo!

Há diferenças em tudo

Quando o caso é realidade;

Educação – liberdade

Saúde e paz – até quando?

- O que poucos têm sobrando

Pra muitos é raridade!

Enquanto uns vão a escola

Para aprender e brincar,

Outros pra se alimentar

Precisam pedir esmolas;

Nas mãos armamento e cola

Ao contrário de brinquedos,

No rosto a face do medo

E do descaso social;

- O abandono é geral

E isso nunca foi segredo!

- Ah se cada governante

Conseguisse no caminho

Ter ao menos um pouquinho

Disso que tu tens bastante!

Como seria gritante

A diferença sentida;

Nos dias – na própria vida

De toda a sociedade;

Plenos rumos de igualdade

E carências diminuídas.

Eu acho que essa pandia

Que hoje ri da miséria,

Brincando com coisa séria

Quando ao certo não podia,

Não foi criança no dia

Ou na época adequada;

Isso explica a palhaçada

Que virou nosso congresso,

Lamentável retrocesso,

Interminável piada.

Quisera eu não cantar

Estes horrores que canto,

Mas assim é em todo canto

Basta olhar para enxergar;

E eu não posso me calar

Antes as barbáries de um mundo

Que segundo após segundo

- Já que o tempo é voz corrente -

Se faz mais indiferente

E se mostra mais imundo!

…hoje te canto criança,

Como a muito gostaria!

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