Música de Macho! Ou de Machista – Coluna do Leitor

por Josnei Weber   

              Nota-se que o machismo é um preceito muito presente no cotidiano atual, e a partir deste conceito,
ou pré-conceito, a sociedade molda-se, segundo algumas linhas de pensamento, a fim de firmar a figura do homem como dominante.
Dentro deste processo sexista, a mulher torna-se um agente masculinizante, pois subjugada á organização social atuante, ela assimila a sua condição, imposta pela sociedade masculina, e a transfere ao berço das novas gerações, tornando-as assim, condicionadas à realidade que lhes será apresentada.

          Porém hoje, o patriarcalismo da sociedade está em um aparente estado de inércia, pois dentro de um contexto humanitário, onde cada vez mais a mulher vem reivindicando seu espaço, e através disto vem conseguindo grandes sucessos, as relações entre homens e mulheres dá-se em um caráter igualitário. Contudo, a ideologia do machismo está estigmatizada no “dito popular”, e esta representação sexista na cultura popular não deixa de ser uma exemplificação da cultura machista vigente.
      

         Partindo deste pressuposto, buscam-se, na cultura gaúcha cantada, evidências das representações machistas, as quais, segundo já dito, circula pelo imaginário sul-rio-grandense.

Letras de Músicas Analisadas
         Na letra das músicas com as quais trabalhar-se-á, inicialmente, percebe-se a representatividade da mulher como o “sexo frágil”, onde ela, a mulher, não estaria “preparada” para o trabalho cotidiano, ficando responsável pelos serviços mais “leves”: “E a minha chinoca fica ali acenando para o seu parceiro/ E tomando conta dos servicinhos lá dentro do rancho1.

        Nota-se que a mulher, enquanto sexo frágil, é poupada das peripécias do dia-a-dia. “Levanto cedo para tomar meu chimarrão/ Salto quietinho deixo no ninho minha parceira” 2 e completa “Daqui a pouquito já se levanta a minha morena/ Me dá um abraço, eu alcanço a cuia de chimarrão” 3. Sendo, a partir disto, a mulher estigmatizada como inapropriada para o trabalho, fica o homem como responsável pelo sustento e segurança da família. “Monto a cavalo depois de tomado meu café campeiro/ E o dia inteiro na campereada por lá me desmancho” 4. Sendo ele polivalente na lide. “Todo mundo veio pro rodeio/ Eu vim porque sou da lida, laço, pialo e gineteio” 5. Tem-se o “rodeio”, hoje, como diversão, porém dentro da historicidade gaúcha o rodeio, era trabalho, e trabalho pesado, sendo, por isso, direcionado aos homens. “Durante o dia eu fico na lida/ Pois eu levo a vida em uma fazenda/ Depois a noite tomo um banho esperto/ Tenho sempre perto minha linda prenda” 6.
O homem, como onipotente, já é esperado pelo pai antes mesmo de ser concebido. “E quando vier um piasito/ Para enfeitar nosso ninho/ Mais alegria vou ter” 7. Sendo o nascimento de um menino muito importante para o patriarca. ”Se é fraqueza na buchada, doutor tu vai decidi/ Que eu vou continua lutando pra vê se eu faço um guri” 8… “Seu doutor eu lhe garanto que machorra ela não é/ Não prestou pra pari macho só pariu filha mulher” 9. Quando do nascimento do homem, este já vem ao mundo como “macho”. “Nasci numa noite escura, o campo é meu universo/ Já no meu primeiro choro sai falquejando verso/ A primeira mamadeira foi a guampa de guaiaca/ E a minha maternidade a sombra de uma ramada” 10.

          A partir do momento que o homem toma o controle da situação, a mulher acaba sendo submetida a ele. “Já fiz chover em três dias só pra apagar o teu rastro/ E se a china for embora eu faço voltar a laço” 11. Subordinada ao homem, fica ela responsável pelas tarefas caseiras, a espera do gaúcho macho vindo da lide. “E as filhas da Chimbica Florisbela/ Já tão com o Mate de Espera/ Loucas pra nos ver chega…,” 12. “Me lembro da tia Picuxa que era surda de um ouvido/ Andava sempre brigando com um fogão velho e entupido/ Chegava de meio-dia tava tudo resolvido…”13

         Percebe-se que para a chegada do homem, a mulher deveria deixar tudo preparado. “Enquanto os home comiam/ A véia ficava em pé/ Gritava de vez em quando: _Se sirvam quando quiser” 14. Depois de tudo pronto, e dos homens terem comido, as mulheres sentam-se à mesa para comer, pois elas devem esperar os homens saciarem-se. “Vocês já comeram a vontade/ Agora é a vez das mulheres” 15.

         A mulher é estigmatizada como dependente da valentia do homem, mas também do carinho dele, pois só o gaúcho macho sabe agradar uma mulher. “Pense bem mulher/ Pra depois não se entristece/ Do jeito que tu gosta/ Só o veinho sabe faze” 16. Nota-se também, que segundo a musicalidade gaúcha, a mulher gosta desta dependência pela valentia do homem. “Porque eu sou louco de bagual/ E faço muito sucesso com as mulher da capital” 17. “Quando me enxerga com os olhinhos arregalados/ Fica com os beiços molhados, com o olhar apaixonado/ Arregaçando a sobrancelha” 18.

          Entende-se ainda, que, segundo o cancioneiro sul-rio-grandense, a mulher, dependente ao homem, gosta da sua posição, tendo apreço pelo gaúcho macho, ou pelo machismo do gaúcho. “Quando chego a mulherada já vem caindo na minha mão” 19. Sendo que, esta estima da mulher pela valentia do homem, abre espaço para o machismo esnobe, pois o gaúcho começa a tratar a prenda como um objeto, apenas mais um elemento da sua tradição. “Festa campeira é cerveja e mulher/ Churrasco e chimarrão/ Festa campeira é emoção” 20. “Churrasco e bom chimarrão/ Fandango, trago e mulher/ É disso que o velho gosta/ É isso que o velho quer” 21.
A mulher passa a ser considerada uma posse do gaúcho. “A minha neguinha ninguém bica/ é só comigo que ela fica” 22; “No meu estilo de macho/ Tu sabe que eu sou teu dono” 23. Nota-se, que a mulher, enquanto objeto, fica sujeita a escolha minuciosa do gaúcho. “Sou nojento escolho a dedo o meu par” 24, devendo ela ser bonita para que agrade ao macho. “Vou tira china mais linda pra bailar de cola atada/ E se não souber dançar ensino e não cobro nada.” 25 Porém, nota-se ainda, que o homem não precisa ser bonito, basta apenas ter atitude de gaúcho macho. “Ser bonitão é uma questão de estilo/ Eu, por exemplo, sou feio/ Mas [as mulheres] me acham bonito” 26.
A partir destas representações musicais, as quais expressam claramente o patriarcalismo social, evidencia-se que o machismo ainda repercute pelo cancioneiro gaúcho, fazendo da musicalidade sul-rio-grandense seu impulsor e disseminador.

 

1 Campeiro Feliz – Xirú Missioneiro.
2 Ibid.
3 Ibid.
4 Campeiro Feliz – Xirú Missioneiro.
5 Todo Mundo Veio Pro Rodeio (Elton Saldanha/ Mauro Ferreira) – Elton Saldanha.
6 Estancieiro – Grupo Sete Povos.
7 É Disso Que o Velho Gosta (Gildo Campos/ Berenice Azambuja) – Berenice Azambuja.
8 Reformando a Mulher Véia – Baitaca.
9 Ibid.
10 Bonito e Rural – Ivonir Machado.
11 Não Chora China Véia (Luis Cláudio/ Elton Saldanha) – Tche Garotos.
12 De à Cavalo (Marcos Noms) – Tchê Barbaridade.
13 Gaita do Belizário (Valdir Silveira/ Carlos Silveira) – Tchê Barbaridade.
14 Ibid.
15 Ibid.
16 Chora no Ombro do Veio – Garotos de Ouro.
17 Bonito e Rural – Ivonir Machado.
18 Minha Negrinha Ninguém Bica! (Edson Machado/ Marcos Noms) – Tchê Barbaridade.
19 Bonitão do Bailão (Fábio Vargas/ Alex Vargas) – Tchê Guri.
20 Festa Campeira – Garotos de Ouro.
21 É Disso Que o Velho Gosta (Gildo Campos/ Berenice Azambuja) – Berenice Azambuja.
22 Minha Neguinha Ninguém Bica! (Edson Machado/ Marcos Noms) – Tchê Barbaridade.
23 Me Bate Nega Véia – Garotos de Ouro.
24 É sábado o dia (Marcelo do Tchê) – Garotos de Ouro.
25 Pra Bailar de Cola Atada (Anomar Danúbio Vieira/Juliano Gomes) – César Oliveira e Rogério Melo.
26 Bonitão do Bailão (Fábio Vargas/ Alex Vargas) – Tchê Guri.

 

 

Trabalho de Monografia Apresentado ao Curso de História da URI – Santo Ângelo no ano de 2007.

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