Vida de artista – Coluna do Arno

 

por Arno Schleder

          Certa vez fui convidado para pintar na parede interna de um estabelecimento educacional, um grande painel. Senti-me lisonjeado, fiquei-me imaginando um painelista mexicano: “Orosco, Siqueiros, Rivera; ou o brasileiro Cândido Portinari”… para mim, os grandes mestres dessa forma de pintura.

 

         Depois de medir a parede, calcular o material e tempo de duração do trabalho, dei o preço, obviamente, considerado muito caro. Questionaram daqui, pechincharam dali, a choradeira foi tanta que acabei cobrando a metade do que de fato o trabalho valia, ainda sendo feitos uns ajustes, parcelando os pagamentos em quatro vezes, pois minha situação financeira, na época, não era das mais confortáveis.

 

          Trabalhei 15 dias, desenhei com esmero, usei cores fortes, subi e desci escadas conferindo todo e qualquer detalhe do trabalho. Depois de tudo conferido, depois de ter analisado a obra de vários ângulos eu então a assinei.

 

           Passado alguns anos voltei aquele lugar para matar a saudade do painel que tinha pintado com tanta dedicação e ver se não tinha rachado a pintura coisas assim. Que surpresa! No lugar do painel havia só uma parede branca. Busquei informações com uma funcionária do estabelecimento e ela me informou que: a nova direção não gostou do painel e mandou “descascar” a parede, rebocar e pintar de branco.

 

          Cada obra que crio é um pedaço de mim. Então naquele momento senti uma grande dor, porque um pedaço de mim havia virado entulho. Outra grande surpresa foi quando descobri que os operários que demoliram minha obra haviam recebido o dobro da quantia que eu tinha cobrado e se não me falha a memória o pagamento foi à vista.

 

           Participei certa vez de uma exposição de artes plásticas numa região onde o forte da economia era a pecuária. Estavam lá, vários artistas, entre eles pintores, escultores, desenhistas e outros sobreviventes da arte. Eu estava expondo alguns retratos em várias técnicas: óleo em tela, grafite, lápis de cor e giz pastel. Durante a exposição uma mulher muito bonita, casada com um grande pecuarista da região, me pediu o orçamento de um retrato a óleo, pois ela gostaria que eu a pintasse.

 

          Dei o preço do trabalho, que naquela época equivalia o valor de duas vacas gordas. A “madame” então chamou seu esposo para combinarmos a pintura e o preço. Quando falei o valor, acabei descobrindo que ele não apenas criava vacas como “era mão de vaca”. Criador forte, tinha mais de duas mil cabeças de gado, o pecuarista achou um absurdo, muito caro o tal retrato!… Claro que duas vacas iam fazer pouquíssima diferença em sua economia. Virei-me para a senhora e falei em tom de brincadeira: “Estou realmente impressionado, pois nesta região as vacas estão supervalorizadas, quanto às mulheres…”. Ela então virou-se e disse em tom decidido: “Podes pintar o retrato porque a metade dessas vacas são minhas, e tenho certeza: Eu valho muito mais que toda essa tropa”. Disse-me, olhando firme para o marido…

 

         Ser artista é ter que matar um leão todos os dias. É lutar cotidianamente para defender aquilo em que se acredita. Ser artista é saber distinguir “amebas de serpentes” (definição: serpente é toda aquela que bate no seu ombro e você pergunta pra ela: “você é uma serpente? E ela te responde de pronto NÃO”. A  “ameba” é aquela que você pergunta se ela é uma ameba e ela não entende a pergunta).

 

         Já me perguntaram várias vezes o porquê da minha escolha em trilhar o caminho da arte. A resposta é simples: escolhi viver com dignidade e assim, poder olhar as pessoas de frente e de cabeça erguida.

Popularity: 1% [?]

Divulgue!