Dirigir é um estresse – Coluna do José Renato

        José Renato de Oliveira Moura

Acho que eu já dirijo há uns trinta anos. Carteira, pelo menos, tenho desde os dezoito, e já devo ter rodado uma quilometragem suficiente para dar algumas voltas no planeta. Mas, de uns tempos para cá, perdi o gosto de dirigir.

           Até então, a serviço ou a passeio, cruzava o Estado dirigindo e não sentia o mínimo cansaço. Pelo contrário, ficava até mais disposto. Agora, tenho preguiça até de movimentar o carro na garagem. Torço por uma carona, ou que dirijam para mim. É muito mais agradável andar no banco do caroneiro, podendo se distrair com o movimento nas calçadas, a arquitetura das casas, a paisagem do campo.

          É que tem muito estresse no trânsito, mesmo em cidades menores, como São Luiz. A impaciência é geral. Tem muito Pato Donald dirigindo por aí, ficando agressivo por qualquer coisa.

           Por exemplo, um dia desses aguardei um tempão na esquina do IPE, vindo da Delegacia, esperando a chance de dobrar à esquerda, e subir em direção à Praça. Quando diminuiu o movimento de carros descendo a Rua São João, à minha esquerda, e notei que o carro que vinha da direita estava ainda longe da esquina, me movimentei.

        Só que o motorista, ao ver o que eu fazia, ao invés de seguir na mesma velocidade, acelerou seu carro, de forma que eu tive que fazer uma manobra brusca, ocupando a contramão do trânsito por alguns metros, para evitar uma batida. E o sujeito foi embora, buzinando, fazendo gestos, me xingando.

         O cara me viu, e acelerou de propósito. Se continuasse na mesma velocidade, eu teria entrado normalmente na via, e ele, mesmo que estivesse indo tirar o pai da forca, não teria se atrasado meio segundo.

          Tenho certeza que fiz a manobra correta, no tempo certo. Mas, mesmo que eu estivesse errado, o comportamento do bom motorista naquela situação (aceitando-se que fosse ele) seria diminuir a velocidade, e dar espaço para que o barbeiro (eu, no caso) completasse a manobra. Talvez ele tenha pensado que, como estava na via preferencial, ainda que longe da esquina, era muita audácia minha não aguardar sua passagem, e quis mostrar quem era o motorista-alfa por ali.

          Essas coisas acontecem o tempo todo, e é isso que me desanima. Poucas pessoas seguram o carro para que o motorista da frente manobre para estacionar, ou possa sair do estacionamento ou garagem. E quase ninguém reduz a velocidade para que o outro carro possa trocar de faixa, ou tem paciência quando trafega atrás de veículos de auto-escola, só para mencionar alguns casos típicos. Por outro lado, são muitos os que param o carro sobre a faixa de segurança, exageram na velocidade, andam ou estacionam com o som a todo volume, e por aí afora.

            Quando saímos para a estrada, então, é um Deus-nos-acuda. É preciso agradecer cada vez que retornamos inteiros. De modo geral, há pouca gentileza no trânsito, o que me faz pensar que talvez o errado seja eu, que não descarrego também toda a testosterona, no volante. Mas tudo bem. Vamos tocando. Não dá nada.

           Qualquer dia desses eu acerto na Mega Sena, compro um carrão e contrato um chauffer. Jarbas, Charles, Alfred , o nome tanto faz, contanto que tenha curso de direção defensiva. Daí, vou andar só no banco de trás, aproveitando a paisagem, sem me afetar com a agressividade dos motoristas bestas-fera. E sem estresse …

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