por José Renato de Oliveira Moura
Vou lhes contar uma pequena história, e depois, expor uma idéia.
A história é real, e começa em agosto de 2003, quando a atriz Isabel Filiardis e seu marido, comovidos com o drama de moradores de rua em sua cidade (Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense) decidiram auxiliá-los.
Os dois logo perceberam que o principal problema era falta de trabalho, devido à pouca ou nenhuma qualificação profissional dessas pessoas. Sem trabalho, não há renda, e elas acabavam na mendicância, situação da qual é difícil emergir. Era preciso, portanto, criar postos de trabalho, para que eles se sustentassem com seu próprio esforço, recuperassem a auto-estima e saíssem da triste situação em que estavam.
Para fazer isso, o casal fundou a organização não-governamental “Doe seu lixo”, e foi à luta. Inicialmente, os dois alugaram um galpão, e passaram a visitar empresas, pedindo que os resíduos sólidos gerados na produção não fossem jogados fora, e sim doados à ONG, para revenda posterior a empresas de reciclagem, e divisão da renda auferida, entre os trabalhadores.
Depois de garantir alguns doadores, o casal passou a convidar pessoas para serem sócios da cooperativa, iniciando pelas que moravam sob os viadutos daquela cidade. Os cooperativados então recebiam equipamento de proteção individual, recolhiam e separavam o “lixo” das empresas, e aprendiam a vender o produto para reciclagem, repartindo posteriormente os valores arrecadados.
Um ano depois, no início de 2004, a organização já arrecadava 50 toneladas de resíduos, que rendiam cerca de R$ 25.000,00 por mês. E no ano de 2005, já havia 130 cooperativados, todos com renda de um salário, e três refeições diárias.
Encerro a história por aqui. Soube que, depois, um filho do casal nasceu com uma doença rara, e eles abandonaram o trabalho na ONG, para poder cuidar melhor da criança.
Passo agora à idéia: seguindo o exemplo, seria bastante possível a Prefeitura promover, aqui, um programa de coleta seletiva no qual os moradores “doassem” o lixo seco de suas residências, já separado, para uma cooperativa de recicladores. E com isso, gerar emprego e renda.
Vamos pensar um pouco. Eles iniciaram, lá em Nova Iguaçu, com 50 toneladas por mês. E Aqui, em São Luiz Gonzaga, considerando-se a população, devem ser recolhidas em torno de 20 toneladas de lixo por dia. São, portanto, 600 toneladas por mês, ou seja, doze vezes mais que a quantidade com a qual a “Doe seu lixo” trabalhava no início de suas atividades.
Claro que lá, eles trabalhavam com resíduos de empresas, lixo “limpo” e valorizado, e aqui o que temos é lixo doméstico, todo misturado, “sujo” mesmo. Mas com uma coleta seletiva razoavelmente organizada, e contando que apenas 20% do lixo doméstico sãoluizense fosse recolhido já separado previamente pelos moradores, seriam 120 toneladas de “lixo seco”, todo mês.
Bueno, 120 toneladas são 120 mil quilos. Se essa quantidade de resíduos fosse depois vendida – por baixo – a cinquenta centavos o quilo, geraria uma receita mensal de R$.60.000,00. Esse valor, dividindo pelo salário mínimo regional, R$.545,00, poderia proporcionar renda para mais de cem pessoas. E isso “chutando” cinquenta centavos o quilo, porque há materiais que valem menos, como papel, mas outros mais valiosos, como alumínio, metal ou vidro.
Mas vamos fazer um segundo cálculo, considerando que despesas de manutenção (combustível, energia, equipamento, administração, etc.), consumissem 20% do valor bruto arrecadado (R$.12.000,00), ainda sobraria renda para remunerar no mínimo 80 ou 90 cooperativados. Poucas empresas locais empregam tanta gente assimMas implantar a coleta seletiva é difícil, é o que muitos dizem. E nesses moldes propostos, é uma verdadeira utopia, acrescentam outros tantos.
“As pessoas não separam o lixo seco” é o principal argumento que ouço, daqueles que vêem dificuldades em tudo. Só que as pessoas não separam porque o caminhão de lixo junta tudo de novo. Ou seja, é justamente pela falta da coleta seletiva que a separação residencial não é feita. Além disso, havendo campanhas de concientização bem formuladas, eu aposto na separação de quase todo o lixo seco (o qual estima-se alcançar de 40 a 50%, do peso total recolhido nas cidades).
“No final, um dos cooperativados enriquece explorando os outros” é o segundo argumento que mais ouvi. E isso não deixa de ser verdade, pois vivemos no capitalismo, onde sempre surge um tubarão, nadando no meio dos peixinhos. Mas isso pode ser facilmente evitado se tivermos a administração (contabilidade, vendas, pagamentos) a cargo de um técnico da Prefeitura, por exemplo, com transparência, e um rígido controle das contas.
De resto, ainda haveria benefícios para o Município, mesmo que este tivesse que bancar a estrutura inicial (armazém, veículo e motorista para recolhimento, administração, equipamentos), até o negócio se tornar auto-sustentável, devido à redução no lixo a ser recolhido e transportado para o aterro sanitário (em outro Município), pela empresa terceirizada.
Explico: nesse tipo de contrato, a empresa contratada recebe conforme a quantidade de toneladas recolhida e transportada. Ou pelo menos, pelo direito, deveria ser assim, com a pesagem de cada carga e pagamento proporcional, a partir de uma tonelagem mínima contratualmente estabelecida, pois há muita diferença no custo de recolher e transportar 20, 15, ou 10 apenas toneladas. Nos municípios em que os administradores se preocupam em economizar o erário, o pagamento por tonelagem é estritamente respeitado.
Peço licença para contar aqui, aliás, um segredo que poucos conhecem: as empresas terceirizadas de lixo não transportam o material recolhido direto, daqui para o aterro sanitário. Não mesmo. A carreta passa, antes, por uma central de triagem da própria empresa terceirizada, geralmente localizada no município onde está o aterro.
Nesse local, empregados separam o “lixo seco” para revenda posterior, e somente o resto, sem valor, vai para o “lixão”. Assim, há um “lucrinho” extra, coisa que os empresários sempre gostam. Se isso também é feito pela empresa que arrecada o lixo aqui, sinceramente não sei, mas é um procedimento quase padrão, nas grandes empresas do setor.
Mas, como nem tudo são flores, há um problema sério para executar a minha idéia. Há anos estudo esse projeto, até mesmo acompanhando experiências semelhantes pelo Brasil afora, e fiz uma triste descoberta: por melhor que o projeto de coleta seletiva seja concebido; por mais que os moradores colaborem separando seu lixo; por melhor que seja a logística utilizada, a coleta coletiva não funciona sem a participação direta das Prefeituras.
E aí, meus amigos, é onde a porca torce o rabo.
As Prefeituras simplesmente não se interessam por isso, já que é muito mais prático terceirizar a coleta como um todo, e esquecer o assunto. Contanto que o lixo “suma” da cidade, geralmente nada mais interessa ao administrador municipal. E é por isso que a coleta seletiva do lixo residencial praticamente não anda, em todo o país.
Infelizmente, a lógica dos nossos dias é a da terceirização, e na maior parte das vezes, forçada, de forma a deliberadamente criar nichos de mercado, para o lucro de associados privados. E devido aos grandes interesses econômicos envolvidos, romper esse paradigma, e adotar as soluções simples para problemas apenas aparentemente complexos, é missão quase impossível.
Em São Luiz Gonzaga, a situação não é diferente. Mas há luz no fim do tunel. Ano que vem teremos eleições, e um passo importante seria cobrar de todos os concorrentes o compromisso de implantar com a coleta seletiva, no modelo humildemente sugerido. E votar naqueles que tem o costume de honrar a palavra empenhada.
“Doe seu lixo” é um grande exemplo. Com um pouquinho de esforço, dá para transformar bastante o mundo. A atriz da Globo, e seu marido, já demonstraram que isso é possível.
E se eles conseguiram, por que nós não podemos, pelo menos, tentar?
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Coleta seletiva sim, mas não basta somente utilizar o que é reciclavel, tem de se aproveitar o que é organico.
Foi enviado um e-mail para um vereador jovem, onde se pensava que teria mente mais aberta, grande iluzão, informando das grandes vantagens do uso do biogas, que é uma fonte de energia que se recebe para receber a materia prima (lixo) e recebe com a venda do gas e com a venda de creditos de carbono.
As autoridades ainda estão na era da pedra lascada onde não existia fogo. Ficam gastando com o lixo em vez de ganhar com ele.
Até quando vamos eleger iguinorantes?
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kkkkkkkkkkkk!!!
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Ainda bem que tem esses “Guerreiros da Catação”, que nas altas horas da noite estão levando o que nós megamaniacoconsumidores deixamos para trás. Eles já estão fazendo sua parte levando latas, pet, papelão. Que caos seria se esses materiais fossem jogados na sua totalidade nas ruas. A sujeira ainda é maior por partes dos cachorros de rua que rompe os saquinhos geralmente no chão.
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Parabéns pela matéria.Apesar de residir há pouco tempo em São Luiz,uma coisa que chamou nossa atenção aqui foi o fato de não haver coleta seletiva do lixo.Demoramos algum tempo para ensinar nosso filho sobre coleta seletiva e hoje o mesmo esta desaprendendo o que ensinamos.
Muito boa sua ilustração sobre o que estamos deixando de arrecadar,caso o lixo fosse separado e vendido.Realmente várias famílias,a exemplo de outras cidades,poderiam trabalhar na separação,conseguindo renda honesta e ambientalmente correta.Claro que em qualquer negócio existem “espertinhos”,mas não podemos usar isso como desculpa,quem assim aje certamente não tem interresse real na proposta,por motivos que nem convém citar.
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Parabéns José Renato! Que bom saber que tem pessoas preocupadas em ajudar a pelo menos amenizar esse grande problema mundial, que é o LIXO. Essa tua sugestão poderia ser amplamente debatida pelas lideranças e pela comunidade. Poderíamos tentar resolver o problema do lixo pelo menos em nossa cidade. Já seria um grande passo.
Já faz muito tempo que seleciono o meu lixo. Desde que em S. Luiz tinha aquela cooperativa dos catadores, que foi desativada. Virou hábito e continuo selecionando. Vou acumulando lixo seco (limpo) no meu galpão e sigo esperando ansiosa que algum catador passe pela frente de casa p/ levar o lixo (eles andam mais no centro). Qdº tem muito lixo, encho o porta-malas do carro e entrego p/ o 1º que encontro. Já me disseram que ñ adianta selecionar, que é pior, pois os catadores pegam só o que vale mais (garrafas pet, alumínio e papelão) e o resto deixam espalhados pelas ruas sujando a cidade. Mas eu continuo fazendo mesmo assim. A natureza agradece, mesmo que seja reaproveitado só um pouquinho do meu lixo.
Por favor, não desista da tua idéia José Renato!
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Caro Pensador, o Astro vai satisfazer tua curiosidade: o dinheiro sai do teu bolso mesmo (e do meu e do nosso…)
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Estou pensando!
De onde sai o dinheiro para pagar a empresa que recolhe o lixo?
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Bueno! Já que o assunto é coleta seletiva, sugiro adotar os sistema de Barcelona na Espanha ou da Holanda, uma cidadezinha com população Menor que a de São Luiz, não lembro o nome dela, mas estão Yotube, são contêiner (Tipo furgão) com portas abertas que os moradores colocam os materiais aproveitáveis e após cheio são recolhidos. SONHAR É PRECISO
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Direto da Vostok I – Laika (da Sputinik) me disse que a proposta de José Renato é excelente. Valentina Tereschkova, minha esposa, primeira mulher a vir aqui para o órbita terrestre, está ao meu lado, navegando na Vostok VI, e sugeriu que o delegado se candidatasse à Prefeito de São Luiz Gonzaga com a missão implementar a idéia, no que dei meu irrestrito apoio.
Aqui no espaço também temos de pensar na questão do lixo…
A terra é azul! Câmbio, desligo.
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Dr. Renato!!!
Proponho que a coleta seletiva ocorra anteriormente à eleição. Será uma incumbência do eleitor. Coleta seletiva não é separar aquilo que pode ser reaproveitado daquilo que deve ser enterrado? Corremos o risco de sobrar muito pouco ou nada a se reaproveitar!!!
Perdão, Dr.!!! Eu entendí sim, mas… quem sabe sua proposta ficaria para a segunda etapa!!!
Um abraço.
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