José Renato de Oliveira Moura
Domingo eu fiz um mate e fui lá para o trevo da BR 285. Fiquei um bom tempo por ali, mateando e olhando a estátua do Sepé Tiarajú.
Tem razão o Pedro Ortaça, quando diz que mateando a gente pensa. Fiquei matutando…
O Sepé nasceu aqui, em São Luiz Gonzaga, que na época devia ter uns 5.000 habitantes. Isso entre 1710 e 1720. Fiquei imaginando a infância dele e dos outros indiozinhos, brincando pelos terrenos, em volta do Colégio e do Cabildo, bem onde hoje ficam a Praça e a Igreja.
Como a casa da minha família fica cerca de 100m, em linha reta, de onde ficava a catedral da Redução, certamente brinquei nos mesmos pátios das crianças de 300 anos atrás. Fiquei encardido com a mesma terra vermelha, comi as mesmas pitangas e amoras…
Imaginei ainda a piazada caçando nas matas, coletando frutas silvestres, pescando no Arroio Barrigudo, que certamente nem nome possuía ainda, e na outra meia dúzia de sangas, que havia ao redor da Redução. E também, nos dias mais quentes do verão, fazendo correrias até o Pirajú e o Ximbocú, só para nadar um pouco, e depois retornar correndo, coisa que até poucas gerações atrás a gurizada daqui ainda fazia.
Não se sabe com que idade Sepé ficou órfão, e foi levado para São Miguel. Se foi na adolescência, provavelmente foi ainda por aqui que ele viveu suas primeiras paixões, ou até mesmo se casou, pois o matrimônio era bem precoce. Consta que os padres apressavam os casamentos dos índios quando chegava a puberdade, para evitar que houvesse relações, “em pecado”.
Demorei um tempão sozinho lá no trevo, mateando e pensando…
Pensei que o Sepé muito deve ter andado, a pé ou a cavalo, por estes caminhos hoje transformados em ruas e estradas. Que muitas vezes olhou este mesmo horizonte, que sentiu frio nestes mesmos invernos. E muitas vezes apreciou a chegada destas mesmas primaveras, de ipês roxos ou amarelos.
E imaginei o que o Sepé faria, quanto a essa questão da água.
Como ele fazia parte de ume elite militar, deveria ter condições de fazer o que séculos depois se convencionou chamar de “avaliação de conjuntura”. E perceberia que a intenção de privatizar os serviços de água e esgoto é a “ponta de lança” da empresa privada, para depois passar a explorar a venda da água mineral do Aquífero Guarani, certamente para o exterior.
Diz a lenda que ele era voluntarioso. Devia ser, para conquistar o status de maior comandante dos guerreiros guaranis. Identificada a ameaça, certamente não ficaria assistindo. Iria à luta, com as armas que lhe fossem disponíveis.
Na guerra guaranítica, a resistência foi difícil, sofrida, no campo de batalha. Para fazer frente ao invasor, os índios produziram até canhões, adaptando a primeira fundição das Américas, destinada originalmente à fabricação de sinos para as igrejas.
Na luta atual, pela manutenção da água pública, as armas são outras, e as alternativas também tem que ser construídas. Mas tudo continua muito difícil e sofrido.
Uma frente será, com certeza, na esfera jurídica. Essa disputa, no entanto, é ingrata, pois o Prefeito tem a legitimidade da função. Além disso, está escudado por uma lei municipal, do ano passado, que lhe permite decidir por decreto sobre o Plano Municipal de Saneamento Básico, e como implementá-lo.
Outra frente será a mobilização da comunidade. Pode ser que, se ficar escancarada a rejeição à privatização, o Prefeito e seus apoiadores mudem de idéia. Afinal, é tão mais simples, vantajoso e não-oneroso para o Município apenas renovar com a CORSAN, como Santa Rosa, e agora Santiago, fizeram.
Tem muita gente querendo um plebiscito, mas o Alcaide nem dá bola. E como mobilizar se a maioria das pessoas não está interessada no debate?
O que o Sepé faria nessa situação? Não dá para imaginar. Mas com certeza não ficaria apenas assistindo.
Meu devaneio andava assim, quando a água da térmica acabou.
Antes de ir embora, não sem fazer, antes, uma relação entre a finitude da água da minha garrafa térmica, e a finitude da potabilidade do Aquífero, dei mais uma olhada para estátua.
Pareceu-me até ouvir que o cacique sussurrava:
Esta água tem dono… Esta água tem dono…
* Este texto foi originalmente escrito em setembro de 2009, e reproduzo agora, porque permanece atual.
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Quem tem que decidi e administração, que foi eleita pela maioria o resta tem aguardar e se tiver errada, nas proximas eleiçoes deem a resposta nas urnas mas nao brincando com sertos candidato que os partidos apresentam que a populaçao nao tem opçoes?.
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Pois é, parece que o PP retomou o seu curso de privatizar. Em menos de 10 dia bandeou de lado duas vezes! Como dizia o Leonel de Moura Brizola: “são os interesses”!
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Pelo que sei, essa mateada quase custou a transferência do José Renato.
Lembram do tal ofício pedindo que o homem fosse corrido daqui, tal qual fizeram certa feita com o Olívio Dutra?
Pois é, temos esses episódios locais que marcam um jeito de fazer política bem deplorável: o desterro pelo “delito” de opinião!
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Desculpa Zé, continuo seu leitor.
abç
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Meu amigo Ewaldo, este texto foi escrito em 2009, quando fui um dos pioneiros nesta luta. Na época a estátua estava lá no trevo. Até coloquei uma observação no final do texto, sobre isso, acrescentando que reprisei agora por considerar que está atual. No mais, um abração.
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Pobre do Sepé Tiaraju.
Achei que ele estava na frente da Prefeitura. Levaram ele novamente para o Trevo ou o José Renato sonhou que estava mateando com o Sepé lá no Trevo.
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Prezado José Renato Moura, sou solidário pelo seu trabalho, pela não privatização da água em São Luiz Gonzaga.
Se isto acontecer a população vai se arrenpender amargamente, no futuro muito próximo, vai ser o caus.
Não consigo entender, o municipio pagar esse alto valor pelo recolhimento do lixo em São Luiz Gonzaga, esse procedimento do Prefeito foi abritrario, ainda sem licitação.
Ainda bem, que vamos ter um plebisito, que não precisava, vamos gastar, o bom senso resolveria o problema.
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caro josé renato, excelente texto, vamos a luta , não podemos baixar a cabeça diante dos desmandos de quem pensa que tudo pode.AQUI NÃO TEM LUGAR PARA MAIS FORASTEIROS VIREM APROPRIA-SE INDEVIDAMENTE DO QUE É DO POVO.
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O SR. CIDADÃO deveria voltar para escola , além de não saber oque diz escreve muito mal.
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Parabéns pelo texto.
Fico imaginando os absurdos da humanidade , ainda por vezes tidos como avanços ou evolução.
Os primitivos tinham tudo em comum.
Depois, pela cerca, vieram os donos das terras (ou da terra).
Adiante a exploração alheia, (donos do trabalho alheio) criando a necessidade de impor o salário mínimo, como forma de conter a relação leonina entre explorador(dono) e explorado(trabalhador).
Hoje, em São Luiz Gonzaga, estamos discutindo no mesmo estilo a nossa relação para com a água. Ser de properiedade ou de direito de uso como existente?
Criado no interior, me faz lembrar o ensinamento da minha avó: Caso algum caminhante cruzando pela estrada, chegasse em casa pedindo água para beber, a negação (ou considerá-la propriedade), seria (ou era) a maior transgressão do preceito religioso e moral. Afinal. a água não era nossa! Nem mérito nosso era.
Já me imagino como adiante a humanidade, em breve espaço de tempo, estará discutindo sobre a posse do ar(oxogênio) para consumo na respiração .
Racionais: vamos dar um basta a este sistema de lógica!!!!!
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Pra que água se ele reformou os asfaltos?
( conversas de período de campanha )
e eu lah falando e falando….. é um Alcaide
TAH AI
Sepé que nos perdoe, pois conforme as gerações foram passando menos corajosos fomos ficando, e mais acomodados estão hoje seus descendentes.
AH…MAS EU SO DA TERRA DE GRANDES HOMENS
SOU DA TERRA DE VALENTES
DE PELEADORES
DE ABENÇOADOS
AH…MAS EU NÃO SOU NADA DISSO
Não precisamos amar todos nossos conterrâneos, mas preciamos nos unir para evitar esta CATÁSTROFE ÓBVIA.
Como que alguém nega um dinheiro dado de direito para querer pagar pelo que merece??
Sabem do que estou falando
e se o povo não consegue ver o óbvio é porque se torna verídico que “O POVO TEM OS GOVERNANTES QUE MERECEM”
QUE VERGONHA SÃO LUIZENSES
QUE VERGONHA
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sr cidadão pelo jeito é puxa saco do prefeito
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o serviço público público da corsan não deve ser tão ruim assim como disse o CIDADÃO, quase a totalidade das cidades do estado renovaram com a corsan. por que??? por que o privado é melhor???, talves não, é que tem pessoas que querem tudo na mão, e por que é publico tem de ser de graça. de graça não funciona, alguem acaba pagando. é melhor pagar e ter do que não ter.
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vitor ribas, informe-se melhor antes de comentar, por favor!!! não cometa gafes. quem paga a agua em algumas vilas???…certamente somos nós, que pagamos imposto, pois se não tem custo para eles, para alguem tem, e se a prefeitura banca é com nosso dinheiro, o que acho injusto. e para teu conhecimento pela lei federal que rege o saneamento tanto a corsan como outra empresa que vier a tomar conta do saneamento em são luiz deverá cobrar esta agua, pois esta na lei, é obrigatório, e se alguem esta dizendo ao contrário, esta mentindo. quanto ao CIDADÃO talves devesse também informar-se direito, onde diz que a corsan tem responsabilidade com esgoto???, não se pode cobrar da corsan o que não é de sua responsabilidade.
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Parabéns novamente Zé,pela sua lucidez frente a este tema,e muito boa sua comparação dos tempos antigos com os atuais.
Pena que alguns não entendem a essência do tema,mas certamente não é por desconhecimento e sim por maldade.
Certamente o espírito do herói Sepé guia seus pensamentos neste e em outros textos de rara sabedoria.Um abraço!!
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O tal cidadão, lacaio do Prefeito, diz que os “serviços públicos” funcionam mal…
Funcionam mal quando gerenciados por incompetentes! E todos sabem de quem estou falando…
Então não se trata de privatizar, mas de não votar mais em incompetentes!
Não vamos se desfazer do controle da nossa água, Temo de nos desfazer e do Alcaide e sua trupe!
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Vejam, estão por aí os “contra tudo”, porque não aceitar que outra empresa esplore os serviços de água e esgoto de São Luiz, ja que a Corsan deixa mto a desejar, aliás, o serviço de esgoto ela nem cuida, e água muito precário e caro, sem falar do mau atendimento por parte de seus funcionários?!
Todos nós soubemos, os serviços públicos funcionam muito mal.
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Sim esta água tem donos, não é da corsan!!!
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Meu caro Jose Renato, nos dias de hoje ainda podemos sorver nosso chimarrão sem a preocupação que irá ocorrer se a nossa agua não tiver dono, será entregue a forasteiros, indiada sei lá de onde, pois ao privatizar, a indiada que estará tratando a nossa agua terá o devido cuidado como se tem hoje? pois a indiada de hoje são servidores efetivos com aprendizado constante, experientes e sabedores da suas responsabilidades, tem lá no seu dna o sangue de sepé, que sabem do cuidado para com o aquifero guarani, e com os farasteiros isso não acontecerá, porque a indiada não criará raizes, não conseguirá incorporar o espirito de sepé, não haverá tempo para criar um elo fraternal, como sepe tinha por este chão e pelas aguas dos nossos rios, em especial pelo ximbocu que abastece as nossas casas, pois um bem tão vital e essencial a vida, não pode ficar sem dono, como somos civilizados vamos defender a agua através de plebiscito, em outro tempos seria com lança em punho, que sepé nos abençõe.
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“prefeitura paga conta de água” das pessoas das vilas?????? nunca ouvi falar disso. o que sei é que em algumas vilas há poços da prefeitura para fornecer água… E a Corsan tem tarifa direfenciada para pessoas de baixa renda, beneficinado os mais necessitados, o que com certeza não haverá numa empresa privada!
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O plebiscito será util se a maior parte da população votar. E votar contra!! Só assim podemos defender “esta água que tem dono”!! Sem contar, que nas vilas é a prefeitura que paga a conta de água das pessoas,eu duvído que a CORSAN venha a fazer isso.
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Agora entendo porque tiraram o Sepé do Trevo e o colocaram lá no Paço Municipal! Trata-se de medida administrativa com vistas a evitar que o José Renato continuasse sorvendo chimarrão naquele local, trocando idéias com o índio comunista…
José Renato, caso Tiarajú estivesse entre nós, diria: temos um bom combate, a causa é justa, reúnam a indiada! Vamos resistir.
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Considero este, um dos textos mais lindos que já li. Primeiro porque nos remete aos tempos do Sepé brincando como brincam até hoje nossas crianças na Praça da Matriz. Segundo, porque nos faz pensar, mais uma vez, sobre o que ainda é possível fazer para evitar a privatização e tudo o que vem com ela. E, por último, nos emociona porque, com certeza, a grande maioria da população de São Luiz também quer dizer em alto e bom som “Esta água tem dono!”
Quando um texto é bem escrito, permanece atualizado pois nunca perde a essência.
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