“Gaúcho” ser ou não ser – eis a questão /Coluna do Arno

          Ele anda sempre fugindo, sempre pobre e perseguido; não tem cova nem ninho com se fora um maldito, porque ser “Gaúcho… ser Gaúcho é delito” – José Hernandez – Martin Fierro, 1872.

Martim Fierro

        Por onde olhar se esparrama pelo horizonte, lá está o Pampa. Um imenso mar verde que tem suas beiradas no Rio da Prata e seu fim, se é que tem, na Patagônia, bem mais ao sul, Argentina, Uruguai e Brasil (Rio Grande do Sul), três paises contemplados com o bioma “Pampa”. Os argentinos chamam-no “Deserto”, duas Franças ou mais, cabem dentro dele.

El Gaucho Martín Fierro

         Para Domingo Faustino Sarmiento, autor do “Facundo” – um dos clássicos da literatura histórica ensaística argentina e mundial, publicados em 1845 – O pampa era a matriz da barbárie americana. Nele só sobreviviam os que Walter Scott chamou de “cristãos selvagens” – os Gaúchos. A quase inexistência de árvores, exceto alguns capões aqui e acolá e o vento gélido da planície, o Pampa só permitia vagar por ele aqueles cavaleiros nômades que viviam ao Deus-dará, mandibulando o que ali era abundante carne que devoravam ainda meio crua, abrigados em toldos de couro cru erguidos de improviso no meio do campo, no meio do nada. Eram os “hunos do mundo novo”, que Átila Caudilhos, como Facundo Quiróga (um personagem real centro de seu livro), arrebanhava com gritos selvagens para ir lutar aos montões (por isso o termo “montoeira”) contra as cidades, contra a chegada da civilização. O ambiente violento e rude, o perigo e a presença constante da morte, fazia com que aquele “mestiço”, meio bugre, meio castelhano, reforçasse seu primitivismo devido a sua intimidade com um fim sangrento”.

Gaúcho

         Acredito que pra conhecermos um pouco desse personagem do qual todos nós riograndenses carregamos um pouco de seu tempero em nosso sangue, temos que nos aprofundar em pesquisar nossas raízes e estas com certeza são bem profundas.

Cavalgando

             Lá no início o termo “Gaúcho” era pejorativo, sinônimo de bandido, ladrão fugitivo da lei.

      (José Hernandes – autor de um dos mais célebres romances sobre o gaúcho). “Martin Fierro” é que transformou o Gaúcho no herói que conhecemos hoje .

           Em Matin Fierro ele passa a ser o “Gaudério” – aquele que faz do céu sua coberta e do campo seu catre. Aquele que vivia “changueando” de estância em estância, sem destino e sem patrão, (na verdade todo e qualquer estancieiro podia ser seu patrão). Porém, a realidade vivida por esse personagem era bem diferente. Não era dono de nada, muitas vezes nem o próprio cavalo era seu. Como “changueador”, domava, trançava corda, sabia exatamente o tempo das lides com o gado e a época da esquila era serviço garantido, na maioria das vezes só pela comida e o pouso. Nem escravo era mais barato. Sua bota de garrão de potro, nunca se encostou ao baldrame da casa grande.  Mate com o patrão só acontecia quando este se “aprochegava” do galpão. Ainda hoje a discriminação existe, claro que em menor escala. Se dormiu em cama que não fosse os seus arreios, foi na cama de alguma “China” em algum bordel perdido na imensidão da Pampa.

 

           Hoje ainda se contam suas bravatas e valentias nas tantas e tantas Guerras que lutou, nem mesmo sabendo porque lutava defendendo a própria vida, porque de fato era só o que lhe restava. Os caudilhos faziam as Guerras, ele era apenas um soldado escolhido para fazer e serviço sujo das matanças que ensanguentaram o pampa. Na maioria das vezes o fazia pra se sentir incluso no grupo e obter determinado respeito, se tornava o “degolador” aquele que aplicava a pena de morte dos Gaúchos, o ato mais covarde que se pode cometer contra outro ser humano, e essa é uma mancha que ficou como marca negativa na história desse herói.

Gaúcho mateando

         Quanto aos “Gaúchos” de hoje, temos algumas controvérsias que, provavelmente abordarei em um outro momento, pois o assunto é rico e requer aguçada observação.

 

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