E o mundo não acabou… – Coluna do Charles

Charles Leonel Bakalarczyk

           Na sexta-feira (anteontem, 21OUT), almocei como um condenado em seu último pedido. Afinal, poderia ser minha derradeira refeição. Segundo profecia do pregador evangélico norte-americano Harold Camping, o mundo estava por um fio, literalmente, sua extinção dada como certa por conta de um grande terremoto que se avizinhava – e apenas 3% da população estaria com passagens compradas para o Paraíso. Cético, conclui não integrar a listagem dos poucos “eleitos”, melhor então desfrutar um último prazer à mesa.
 
            Camping vaticinou o fim do mundo para o dia 21OUT2011. Teve conhecimento do evento, segundo ele próprio, pelo emprego de refinados cálculos matemáticos, sofisticadas leituras bíblicas e animadas conversas com o Criador. Miscelânea de pseudociência, religiosidade e fanatismo, salvo melhor entendimento.
 
            Mas o homem apocalíptico não é bom de adivinhação e de matemática. Ou sua linha direta com Deus está irremediavelmente prejudicada, já que primeiramente anunciou o fim dos dias para  06SET1994 e, numa segunda oportunidade, para 21MAI deste ano. Depois, num processo de revisão, com adições, subtrações e multiplicações de números, projetou para 21OUT último. Então, errou pelo menos três vezes os seus cálculos. Bom para mim (e ainda saboreei aquele almoço). Ruim para os 3% da humanidade, os justos que se deleitariam na bem-aventurança do Paraíso. Pior ainda para os seguidores do pregador, caso tenham se desfeito de seus bens de forma definitiva.
 
             Aliás, Camping foi ‘homenageado’ este ano pelo bem-humorado prêmio Ig Nobel, troféu de “matemática” dedicado às pessoas que, através de “cálculos aritméticos”, anunciam o fim do mundo sem sucesso.
 
            Os seguidores do ignóbil Camping – que abandonaram suas casas na preparação para o encerramento dos tempos -, ficaram “surpresos” com o novo erro do pregador acerca da data do juízo final. Teriam eles adimplido o dízimo em aberto com a igreja do pregador a cada anúncio de “Armageddon”? Se o fizeram, então foi encontrado um eficiente mecanismo de cobrança!
 
             No próximo anúncio do pregador Camping, pretendo reduzir meu egoísmo. Vou ofertar uma bela refeição a um menino de rua faminto, um desses esquecidos de (quase) todos nós, do Estado, dos pregadores do Apocalipse e até de suas próprias famílias, cujo fim de mundo é uma realidade cotidiana.
 
              P.S.: O Anderson e o pessoal do Guia São Luiz também aproveitaram bem o pré-apocalipse, no dia 19, pelo que vi nas imagens postadas no:
http://guiasaoluiz.net/2011/10/guia-sao-luiz-completa-dois-anos/.

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