Ogum cresceu aprendendo as habilidades seculares de sua tribo. Seu pai lhe ensinara a trabalhar com os metais e suas peças de cobre eram elogiadas por todos. Jovem ainda, conseguira permissão para casar o que um “Yuruba” só podia fazer, se antes provasse capacidade de produzir bens suficientes para trocá-los por alimento e roupas.

Vieram os filhos. Ogum precisava trabalhar bastante para mantê-los. Precisava ir com mais freqüência ao posto de troca, onde deixava seu produto e recebia o sustento das mãos dos dominadores fon. Numa dessa viagens, viu pela primeira vez uma “gente estranha” que se costumava falar na tribo, mas, que ninguém entendia. Era uma gente sem cor. Como podiam existir homens assim – pensava Ogum – se, como todos sabiam, “Odudua”, o sopro Divino, tinha concebido o Homem, e esse homem era preto. Mas os brancos ali estavam – com suas roupas pesadas, seus calçados de couro, suas armas de fogo. Eram portugueses, fixando-se em núcleos comerciais ao longo da costa ocidental africana.

Um dia, logo ao nascer do sol, Ogum repete a rotina de ir ao posto de trocas, afastado da aldeia. Uma caminhada fatigante, porém indispensável. Só ao cair da tarde Ogum voltaria. Mas, quando voltou, sua família não estava à espera. Nem seus vizinhos. Nem seus amigos. Só alguns velhos, assustados e confusos. Por eles Ogum descobre o que se passara: soldados daomeanos e homens brancos invadiram a povoação, prenderam e levaram em cativeiro quase todos os habitantes. O que Ogum não ficara sabendo é que os próprios chefes Yuruba tinham participado da operação: eles ajudavam a escravizar seus irmãos.

Só havia uma coisa a fazer, Ogum não tinha dúvida: ir ao encontro de sua família onde ela estivesse. Armou-se de um punhal, invocou a proteção de seu Orixá e pôs-se em marcha. O Orixá não veio em seu socorro: quando Ogum alcançou a fila de gente que ia devagar pelas trilhas da floresta, o punhal foi inútil. Logo o bravo Yoruba foi dominado - e de que adiantava resistir, se resistência seria sua morte? E morto como poderia proteger sua mulher e filhos.

Assim Ogum ficou na coluna dos cativos. Andaram dias e dias; os captores não queriam cansá-los demais, por isso não forçavam a marcha. O rumo era a costa, onde os portugueses tinham vários portos: Lagos, Porto Novo, São João de Ajudá.
Lagos é hoje a capital da Nigéria; Porto Novo, de Daomé, e São João de Ajudá constituiu – até 1964 – um enclave português nas terras dos países independentes da África, murcha reminiscência dos tempos idos.
Durante a caminhada, Ogum percebeu que a fuga era impossível. Para os que tentassem escapar, havia apenas um castigo: a forca (ainda hoje, um dos portos da Nigéria se chama “Forcados”, em memória aos negros que ali perderam a vida para não serem escravos). Nada restava fazer, senão andar. Finalmente chegam a São João de Ajudá. É uma verdadeira fortaleza ao lado da cidade da Ouidah. Os presos são amontoados perto do cais, ali ficam dois dias, até que, escoltados por guardas daomeanos, aparece outro homem branco – o comerciante. Começa a escolha: homens, mulheres e crianças são agrupados ou, separados conforme os interesses do traficante. Os selecionados, Ogum entre eles, são embarcados num navio. Os mais agressivos são postos a ferros; os demais simplesmente atirados ao porão. Pouco depois o veleiro partirá. Destino: a colônia portuguesa chamada Brasil. Ogum irá trabalhar num engenho de açúcar, sua mulher será escrava de alguma sinhazinha, seus filhos – o que será de seus filhos?…
20 de Novembro – dia da consciência negra
Popularity: 1% [?]






























Boa lembrança Rivaldo… não sejamos hipócritas de crer na história ensinada nas nossas escolas… Em relação à estória, tenho até receio de pensar que fim levaram os filhos do pobre Ogum, tanto quanto os filhos de milhares de outros cativos que aqui chegaram… triste página na história da humanidade….
Vote!
2
0
A data é por causa de Zumbi, que por sinal possuía mais escravos que muitos brancos.
Vote!
4
0