Os caminhos da escravidão (II) – Coluna do Arno

              Existiram milhares de Oguns. Trazidos ao Brasil. Às ilhas do mar das caraíbas, aos Estados Unidos, suas histórias individuais desapareceram no anonimato comum da condição de escravo, nessa mesma condição em que ajudaram a construir as novas civilizações da América. Com seu trabalho principalmente, mas também com seus costumes, suas tradições, suas crenças, sua arte.

               Seu rico passado cultural que o Ocidente ignorou ou desprezou durante tantos séculos. Sua organização social que o colonialismo torceu e destruiu o quanto pôde. Mas, que ainda  assim sobrevivem e se revigoram na segunda metade do século XX, quando as Nações Africanas se fazem independentes. E passam a escrever, eles mesmos sua própria história.

                Não só os Youruba foram vítimas do tráfico de escravos (que para o Brasil, encaminhava cerca de 50 mil pessoas por ano, segundo o historiador Pandia Calógeras). Os fon, (tribo poderosa que dominou outros povos  africanos, manteve durante muitos anos um Reino poderoso) vendia  também seus irmãos ewe, ou gege e ainda os fanti axanti, que habitavam o atual territóro do Togo, da Costa do Marfim, da atual Ghana, entre nós chamados de minas.  Os fanti axanti tinham uma cultura muito parecida com a fon-gege e a yoruba. No Brasil, não conseguiram deixar vestígios claros  de suas tradições. Eram tidos como valentes  e inteligentes, bons pescadores e conhecedores de cozinha e, no entanto, muito rebeldes à diciplina do trabalho. Além disso, foram ainda escravizados e trazidos para o nosso país, os peuls, os mandingas. Os haussa – habitantes da atual República do Mali – os tapas, rornu e gurunsi da mesma origem( no Brasil, todos chamados geralmente de malês).

               Eram os mais desenvolvidos culturalmente. Muitos sabiam ler e escrever em caracteres arábicos – ao contrário dos donos, que quase sempre eram analfabetos.. Os turbantes, as saias redondas rendadas, as chinelinhas, os panos de costa das baianas do Brasil são sobrevivência de seus costumes.

                 O Brasil só é o que é hoje, em grande parte graças à cultura e o trabalho do negro que para cá foi trazido contra sua vontade. Lutou em todas as guerras e revoluções, sempre sob a mesma promessa mentirosa de liberdade.

                Outros povos que vieram para o Brasil, na maioria europeus, alemães. italianos, poloneses  e tantos outros entre eles os japoneses, estes, oriundos da Ásia que hoje  também fazem parte da formação étnica dos brasileiro, foram trazidos para cá  sob a promessa  de ganharem terras para plantar e outras promessas, também mentirosas, pois aqui chegados foram praticamente, largados à própria sorte sem nenhum apoio do governo da época. E foram chantageados e  ameaçados de perderem o pouco que aqui tinham conseguido. Sabe-se, porém, que lá nos seus países de origem estavam passando por dificuldades imensas e a vinda para colonizar o novo mundo era uma das poucas alternativas que tinham. Na realidade, a maioria deles veio substituir a mão de obra escrava e muitas vezes, tratados como escravos. A grande diferença entre esses colonos e os negros africanos, além da cor da pele, foi a forma como foram trazidos.

             Os negros  africanos  não tinham nenhum motivo para deixar a sua terra natal, foram aprisionados e acorrentados. Também não tinham nenhum motivo político ou econômico para deixarem a África. Já os outros imigrantes tinham muitos problemas, tanto políticos como econômicos. E no início foram tão maltratados que a diferença entre um colono europeu e um escravo africano era só a cor da pele. Pois de fato, na maioria vieram para substituir a mão de obra escrava, que por força da lei estavam sendo libertados.

 

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